Apenas são!

O comportamento do casal chamava a atenção dos moradores da cidade do Lago. Eles viviam em uma casa grande, rodeada por frondosas árvores, anônimos a qualquer acontecimento social. Não tinham amigos, familiares, nem empregados.

O casal passava horas e horas de seus dias sentado à beira do lago, o qual dera nome à cidade, sem se tocar ou sequer se falar.

O único momento em que frequentavam a sociedade era aos sábados, para uma breve refeição no conhecido e bem frequentado hotel. Sentavam-se sempre na mesma mesa, eretos como guardas da realeza britânica. Não se tocavam, tampouco falavam, e quando o faziam, apenas sussurravam de forma inaudível aos curiosos de plantão.

Após a breve refeição, retiravam-se com a mesma postura e delicadeza com que haviam adentrado o local. Muitos curiosos seguiam o casal, que já se tornara atração na cidade. O que viam não lhes revelava nenhuma novidade.

O casal, simplesmente, acomodava-se à beira do lago, eretos e calados. Deixavam o sol banhar seus corpos prostrados e tranquilos, lado a lado, marido e mulher, como dois seres da natureza, como flores no jardim à espera das abelhas para retirarem seu néctar. Sem alarido ou movimento, apenas existem. 

Apenas são!


Silvia Marchiori Buss

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