Amiga Fiel
Servir a dois senhores não é tarefa fácil, ainda mais quando são patrões completamente diferentes; esse era o caso de Malvina, empregada que se revezava entre dois trabalhos em duas casas diferentes no mesmo dia.
As coisas andavam difíceis, não podia rejeitar trabalho, precisava muito desses salários. Mulher decidida, mãe dedicada e corajosa, assumiu a compra de uma casa "no osso do peito"; na verdade, mais peito do que osso.
Era uma grande mulher, tanto de tamanho quanto de lealdade com seus patrões. Eles já a consideravam uma grande e fiel amiga. Sabia os gostos de cada um deles e se desdobrava para agradá-los.
Pela manhã, atendia um casal um tanto estranho para ela, pelo menos no início; agora já aceitava e até achava “normal”.
Pedro e Júlio, dois homens lindos, moravam em um belo apartamento de frente para o mar. Pedro era um executivo, dos grandes, como Malvina se gabava, de um grande e conhecido banco, e precisava estar sempre impecavelmente vestido. Normalmente, vestia terno completo, camisa social e gravatas. Tinha coleções de gravatas; Malvina até tentou contar quantas, mas se perdeu na metade. Não era muito dada a números, só sabia que passava horas da manhã organizando o armário do Dr. Pedro.
Seu parceiro, Júlio, era mais "folgado", mais "relax", como dizia. Dirigia seu próprio negócio, era dono de uma loja de pranchas, sua grande paixão, depois de Pedro.
Júlio não tinha hora para acordar, afinal, era seu próprio patrão. Levantava lá pelas dez horas, vestia seu bermudão, camiseta descolada, Havaianas e um boné; vestido dessa maneira descontraída, depois de um saboroso desjejum, dirigia-se à loja. Ali atendia seus clientes, fazia encomendas e assinava a papelada que seu gerente lhe apresentava, tudo sempre pronto, era só assinar. Trabalho que não dava trabalho.
Malvina costumava comentar com as colegas: "Deus não me castigue, mas quem trabalha mesmo é o Dr. Pedro; esse não tem hora para chegar. Quando chega para trabalhar, já está impecavelmente vestido, esperando seu cafezinho. Não tinha o hábito de comer muito a essa hora da manhã."
Achava estranho como duas pessoas tão diferentes podiam viver juntas. Considerava os dois muito lindos, até achava um desperdício, com tanta mulher... Deixava o jantar preparado, sempre um refinado cardápio. A mesa para o jantar ficava devidamente arrumada conforme seus patrões gostavam. Pensava consigo mesma que eram regras aceitas por Júlio, assim ela o tratava, a pedido dele. Mas quem determinava o cardápio e as arrumações era o Dr. Pedro. Ele bem que podia ser mulher, pois conseguia fazer bem seu trabalho e ainda organizar uma casa. Só faltavam filhos. Admirava muito o casal, eram tão fofinhos.
Nunca havia pego os dois em maiores intimidades, até que certo dia chegou mais cedo e ouviu sussurros vindos do quarto do casal. Meio sem jeito, aproximou-se da porta e escutou o Dr. Pedro dizendo coisas que ela jamais imaginaria ouvir da boca do refinado Dr. Pedro. Deu meia-volta e afastou-se pé ante pé para a cozinha, ali era seu lugar. Depois do que ouviu, entendeu como duas pessoas tão diferentes podiam viver juntas.
Passava do meio-dia. Malvina já estava chegando esbaforida para o segundo turno de trabalho, agora na casa de um jovem casal. Ela, médica do hospital da cidade, e ele, um bancário.
Ainda não tinham filhos; Dra. Lúcia dizia que estava cedo, precisava de mais um tempo.
Malvina, batendo na mão sobre a boca, dizia: "Deus que me livre, mas se demorar muito, não terá filhos nem marido."
Seu Joca era um belo homem, gostava de academia e de curtição. Seu horário de trabalho era mais flexível que o da Dra. Lúcia. Chegava em casa ainda cedo da tarde, dava alguns telefonemas e partia para a academia.
Malvina cansou de ouvir o Sr. Joca falando baixinho no telefone, marcando encontros com mulheres. Tinha certeza de que nunca ouvira o nome "Lúcia", portanto, não era com sua esposa que ele tanto falava no telefone.
Como não era seu ofício, preferia ficar calada. "Em boca fechada não entra mosca." Na dela, com certeza, nem umazinha iria entrar.
Costumava deixar o jantar arrumado, nada tão sofisticado como na casa de Júlio e do Dr. Pedro. Normalmente, o casal fazia um lanche com várias frutas, frios e pães. Tudo ficava por conta de Malvina, que sabia o gosto do casal.
Certa tarde, ao passar pelo escritório, escutou Joca falando com alguém; o nome lhe era conhecido. O lugar onde estavam marcando para se encontrarem era o mesmo que costumava reservar, em sigilo, para o Dr. Pedro.
Bateu com a mão na boca e disse: "Que Deus me perdoe, mas Dr. Pedro é do banco e o Sr. Joca é bancário."
"Deus me livre de fazer mau juízo."

Silvia Marchiori Buss
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