A dança dos pombos
Carla e Pedro casaram-se muito jovens, desafiando a vontade dos pais que os achavam imaturos para o casamento. Mas a paixão e o amor entre os dois eram tão intensos que conseguiram convencer suas famílias a abençoar a união. E assim, começaram sua vida juntos, felizes e apaixonados, uma jornada que duraria quase cinco décadas. A cada ano que passava, o amor, o respeito e o companheirismo entre eles só aumentavam.
Eles tiveram três filhos e dois netos, e viviam para e com a família. Carla e Pedro se bastavam mutuamente, e seus momentos preferidos eram aqueles em que estavam juntos, especialmente no amanhecer. Esse era o melhor horário do dia para eles. Pedro, sempre o mais madrugador, preparava o café da manhã com todo o carinho, esperando que Carla, mais dorminhoca, se levantasse. O café, mesmo simples, parecia sempre um banquete, um verdadeiro manjar dos deuses.
Enquanto tomavam o café, conversavam sobre os livros que estavam lendo, as notícias do mundo e, claro, sobre os filhos e as "pérolas" dos netos, crianças doces e cheias de energia. O cenário dessa manhã perfeita era completado por um casal de pombos que sempre aparecia para fazer companhia. Carla e Pedro tinham dado nomes aos dois e se divertiam criando diálogos para os pássaros, especialmente quando eles pareciam estar discutindo. Essas brincadeiras sempre terminavam com risos, abrindo espaço para as longas conversas entre o casal.
Porém, em uma manhã de setembro, um dia que prometia ser apenas de alegria com a chegada das esperadas férias, Pedro sentiu uma dor forte no peito. O que começou como um desconforto se transformou rapidamente em algo mais grave, levando-o à morte repentina. Carla, que esteve ao seu lado o tempo todo, segurou sua mão com firmeza, sussurrando palavras doces e encorajando o marido até o último momento.
A morte de Pedro causou uma tristeza profunda em Carla. Sua alma gêmea, seu companheiro de vida, não estava mais ali. A luta para continuar sem o amor de sua vida era diária e dolorosa. Até os pombos que costumavam aparecer no café da manhã pareciam tristes, como se também sentissem a perda do símbolo de amor que o casal representava.
No dia da missa de 30 dias do falecimento de Pedro, uma cerimônia emocionante reuniu amigos e familiares. Embora o apoio fosse reconfortante, nada parecia aliviar o coração de Carla. As lembranças, por mais bonitas que fossem, não eram suficientes. Ela sentia falta do calor de Pedro, de seu beijo, de suas mãos firmes.
Foi então que, no meio da missa, algo surpreendente aconteceu. No alto da igreja, um casal de pombos surgiu, dançando de maneira graciosa ao som da música. A beleza daquele momento era tão marcante que parecia mágico, como se fossem eles, Carla e Pedro, em outro plano, mostrando que o amor deles transcendia a vida. Carla, com os olhos marejados, cessou as lágrimas por um instante, abriu um sorriso leve e percebeu que, de fato, seu amor por Pedro não havia acabado. Ele estava apenas começando de uma forma diferente, mas eterna.
A partir daquele momento, Carla encontrou força para continuar, sabendo que Pedro sempre estaria ao seu lado, não mais fisicamente, mas em cada lembrança, em cada amanhecer, e nos pequenos sinais da vida — como o voo dos pombos que sempre lhe trariam a certeza de que o amor verdadeiro nunca morre, apenas se transforma.

Silvia Marchiori Buss
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