A Cor da Alma

No fundo, Cristina sabia que não daria certo. Sabia que não tinha nenhuma chance com seu vizinho, mas insistia nesse romance. Tudo dependia da cor que sua alma acordava. Cristina queria amar e ser amada, pelo menos uma vez na vida, e, dessa vez, o escolhido fora seu vizinho, a quem amava de uma forma que dizia até doer...

"Amar pode causar dor?", costumava perguntar ao terapeuta. "Se sim, amo mais que tudo esse homem."

O conflito entre as cores da alma de Cristina se contradizia a cada dia. Às vezes, acordava tão escura quanto uma noite de temporal; em outros dias, sua alma parecia ter repousado nas asas da noite. Nos momentos de lucidez, sabia que esse amor era impossível, já que o lindo homem de enigmáticos olhos verdes era casado e bem casado.

Roberto e Clara eram vizinhos de porta de Cristina, que se tornara uma mulher solitária e sombria desde que fora traída pelo marido. Cristina costumava dizer que, a partir de então, sua alma se tornara cinza, pálida e sem graça. Por incontáveis anos, ficou com a alma cinza, desbotada e desfalecida, beirando a morte, até conhecer o vizinho que provocou novas nuances nas cores de sua alma.

Ah! Roberto! É o amor da minha vida... logo largará tudo e todos para vivermos nosso amor. O terapeuta de Cristina tentava centrá-la ao dizer que esse amor não daria frutos, que não renderia e... blablabla...

"História pra boi dormir", pensava a alma colorida de Cristina. Nesses dias coloridos, não escutava ninguém, e seu amor por Roberto crescia, crescia e crescia, assim como o ódio que passara a sentir pela mulher e pelos filhos dele.

Roberto começou a perceber as investidas cada vez mais agressivas da vizinha, que ocorriam, principalmente, na garagem do prédio, onde ela sabia encontrá-lo sozinho, no horário de saída e chegada do rapaz.

No início, Roberto pensava que era apenas uma mulher gentil, amável e solitária que tentava fazer amizade. Logo percebeu, porém, que esse afeto era obsessivo demais. Começou a temer a reação da esposa se ela descobrisse, já que Clara era mandona demais, explosiva demais, para não falar barraqueira. Por conhecer a esposa do jeito que ela era, preferia andar "pianinho" para não se incomodar.

As investidas de Cristina cresceram tanto que se tornaram insuportáveis. Foi quando Roberto resolveu abrir o jogo para o furacão chamado Clara e também para a vizinha. Decidiu deixar tudo às claras com ambas. Para Cristina, disse que ela perdesse qualquer esperança, já que por ela nada sentia. Para Clara, disse estar sendo assediado pela vizinha. Cristina nem ouviu, pois sua alma colorida do dia a deixava completamente equivocada e surda. Já Clara explodiu.

"Te conheço bem, 'seu' Roberto... estava esperando essa confissão para constatar a verdade... tudo o que eu já sabia por esse bilhete escrito à mão e deixado debaixo da porta..."

"Você pensa que sou cega? Estou sendo traída bem debaixo do meu nariz." Sem dar tréguas, continuou num sopro só. "Imagina! Que disparate! Trocar tudo isso daqui." Nesse momento, deslizava a delicada mãozinha, que não estava acostumada a fazer nadica de nada, só ser bem tratada, da cabeça aos pezinhos, igualmente bem tratados, para continuar o discurso... "Imagina, eu hein... mato tu depois a aquela ali da frente."

Para Roberto, os dias foram se arrastando, cada vez piores, tanto em casa, devido à raiva da mulher pela suposta traição, quanto pelas investidas de Cristina, que a cada dia acordava com a alma mais colorida e tinha certeza de que Roberto a amava e que logo estariam juntos para sempre.

Na quinta-feira, Cristina se preparou para o esperado "encontro" na garagem... 11h marcava o relógio e ela estava a postos, toda emperiquetada, para esperar aquele que seria seu futuro marido. 12h, nada. Uma hora da tarde, e nada... Ao deixar a garagem, encontrou a bela rival saindo lépida e faceira, indo às compras. Foi quando descobriu que seu futuro marido jamais voltaria. A partir desse dia cruel, a alma de Cristina se enclausurou em um luto permanente.


Silvia Marchiori Buss

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