O Dia Em Que o Silêncio Falou

 Quando o telefone tocou, Laura não atendeu.

Ficou olhando para o aparelho sobre a mesa da cozinha enquanto ele insistia.

Um toque. Dois. Três.

Depois parou.

Ela continuou olhando.

Nos últimos oito meses, aprendera que algumas ligações mudam uma vida inteira. A que recebeu numa tarde de setembro dividira sua existência em duas partes: antes e depois.

Desde então, passou a desconfiar dos telefones.

Levantou-se, colocou água para ferver e foi até a janela.

Na casa da frente, uma mulher sacudia um tapete.

Um menino corria atrás de uma bola.

Dois homens conversavam junto ao portão da oficina.

A cidade seguia vivendo.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se Eduardo nunca tivesse existido.

Como se o coração dela não tivesse ficado preso naquele quarto de hospital onde se despedira dele.

Laura fechou os olhos.

Dentro dela não havia revolta.

Nem perguntas.

Nem a conversa interminável que mantinha com a ausência.

Nada.

Apenas silêncio.

Um silêncio tão profundo que chegou a assustá-la.

Até então, acreditava que o silêncio fosse vazio.

Não era.

Parecia uma sala fechada havia muito tempo.

E a porta estava aberta.

Voltou para a cozinha quando a chaleira começou a chiar. Preparou o café, sentou-se à mesa e deixou a xícara esfriar entre as mãos.

A casa parecia maior.

Ou talvez fosse ela que ocupasse menos espaço.

Durante meses tentara escapar da saudade. Enchia os dias com tarefas desnecessárias. Arrumava armários já organizados. Lavava roupas limpas. Ligava a televisão sem prestar atenção ao que passava.

Tudo para não pensar.

Tudo para não lembrar.

Naquela manhã, porém, não encontrou disposição para fugir.

O silêncio permanecia diante dela.

Não como inimigo.

Nem como visitante indesejado.

Apenas presente.

Laura levantou-se e caminhou até o quarto que não abria havia meses.

A porta rangeu.

O cheiro de Eduardo já não existia, mas suas marcas permaneciam espalhadas pelos cantos.

Um livro sobre a mesa de cabeceira.

Um casaco atrás da porta.

Um bilhete preso entre as páginas de uma agenda.

Pegou o papel.

A letra era dele.

Poucas palavras.

Uma anotação banal sobre uma conta a pagar.

Nada importante.

Ainda assim, as lágrimas vieram.

Não pelas palavras.

Pela letra.

Pelas curvas das letras.

Pela firmeza com que ele segurava a caneta.

Pela lembrança de uma mão que conhecera melhor do que a própria.

Sentou-se na beira da cama.

E chorou.

Não o choro desesperado dos primeiros dias.

Nem o que sufoca.

Era um choro tranquilo.

Como chuva sobre uma terra cansada.

Quando as lágrimas cessaram, a dor continuava ali.

Mas não vinha sozinha.

Havia também gratidão.

Lembrou-se das viagens improvisadas.

Das discussões inúteis.

Das noites em que adormeciam vendo filmes sem chegar ao final.

Das risadas durante o café da manhã.

Dos planos que nunca saíram do papel.

Das promessas cumpridas e das que a vida não permitiu cumprir.

As lembranças já não chegavam apenas para ferir.

Traziam calor.

O dia avançou devagar.

A luz da tarde entrou pelas frestas da janela e desenhou caminhos dourados sobre o assoalho.

Laura permaneceu ali.

Sem pressa.

Sem lutar contra o que sentia.

Durante meses acreditara que a saudade fosse uma prisão.

Talvez fosse uma ponte.

Uma forma de carregar consigo aquilo que o tempo não podia levar.

Quando o telefone voltou a tocar, no início da noite, ela atendeu.

Era a filha.

Conversaram sobre coisas simples.

O mercado.

O trabalho.

O neto que começara a perder os dentes de leite.

Assuntos comuns.

Assuntos da vida.

Antes de desligar, a filha perguntou:

— Mãe, está tudo bem?

Laura olhou ao redor.

A casa era a mesma.

A ausência também.

Eduardo continuava morto.

Nada mudara.

E, ainda assim, alguma coisa encontrara seu lugar.

— Sim — respondeu. — Hoje está.

Depois desligou.

Abriu a janela.

A rua estava cheia de sons.

Carros.

Passos.

Vozes.

Cães latindo ao longe.

O mundo seguia fazendo o que sempre fez: vivendo.

Laura respirou fundo.

Sorriu.

O silêncio nunca falou por palavras.

Falou pela dor.

Pela saudade.

Pelo amor.

Há verdades que só aparecem quando todo o resto se cala.

Naquela noite, antes de apagar a luz, passou a mão sobre a fotografia de Eduardo na estante.

Não disse adeus.

Não disse até logo.

Alguns amores não cabem em despedidas.

Apenas sussurrou:

— Obrigada.

Dormiu sem pedir ao passado que voltasse.

Nem ao futuro que chegasse depressa.

Dormiu apenas dentro daquele instante.

E o silêncio, enfim, deixou de ser ausência para se tornar companhia.

Silvia Marchiori Buss

 

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