Separados Por Uma Parede
Era uma casa como tantas outras, com paredes que abrigavam risos e silêncio, onde o tempo parecia escorrer devagar pelos corredores. A parede central, que separava o quarto do casal da sala, sempre fora apenas mais um elemento estrutural, pintada de um bege comum, sem decorações que chamassem a atenção. Mas agora, ela era tudo.
Eles tinham vivido juntos naquela casa por quarenta e oito
anos. Cada rachadura no piso, cada marca na pintura, cada móvel fora testemunha
de sua história. Mas a morte chegou silenciosa uma noite, como uma brisa que
apaga a chama de uma vela. Ele se foi, ali, diante dela. Nos dias seguintes, o
luto não era apenas uma ausência; era uma presença palpável, como o peso de uma
manta molhada que cobre o corpo e impede os movimentos.
A parede agora tinha um significado que ela jamais poderia
imaginar. Ele estava do outro lado. Era o que sentia. A vida e a morte,
separadas por uma barreira tão fina quanto o ar, mas tão intransponível quanto
o oceano. Deitada na cama, ela ouvia o eco do que poderia ter sido: o rangido
de passos no assoalho, o suspiro pesado que ele soltava ao sentar-se na
poltrona. Ela se perguntava se eram apenas lembranças ou algo mais. Será que
ele também, de seu lado invisível, encostava na parede e a sentia?
As noites eram longas, e o silêncio se tornava ensurdecedor.
Até que uma madrugada, sem saber bem o porquê, ela se levantou e encostou a
palma da mão na parede. Não era uma busca racional, mas um impulso, um desejo
de atravessar o concreto e alcançá-lo. Seus dedos traçaram o contorno da tinta
áspera, e, por um instante, ela teve certeza de sentir o calor da pele dele do
outro lado. Uma ilusão, ela sabia. Mas, ainda assim, sorriu.
A partir daquela noite, encostar-se à parede virou um
ritual. Ela contava a ele sobre o dia, os netos, as flores no jardim. Falava
sobre as coisas pequenas, como o cheiro de café pela manhã ou a chuva batendo
no telhado. E às vezes, no meio dessas conversas solitárias, lembrava-se de
coisas que ele dizia, de piadas velhas que ainda a faziam rir. Era um dialogar
consigo mesma, mas também com ele, ou com a ideia dele.
Certo dia, ao reorganizar o armário, encontrou uma caixa que
ele havia guardado, cheia de cartas que nunca foram enviadas, fotos desbotadas
e pequenos objetos – um botão de camisa, uma pedra lisa de rio um relógio antigo
que marcava a hora dele voltar. Coisas que, para quem não soubesse, não tinham
valor algum. Para ela, eram um mapa do amor que viveram, cada item uma
história. Pegou uma dessas cartas e leu em voz alta, sentada no chão ao lado da
parede. Era uma carta que ele escrevera para ela em uma época em que estavam
separados por mil quilômetros, mas que nunca tivera coragem de entregar. As
palavras dele ainda tinham vida, e ao pronunciá-las, ela sentiu como se a
parede estivesse prestes a se dissolver.
Os dias se transformaram em uma convivência com o invisível.
Ela aceitou que a dor nunca sumiria por completo, mas que podia coexistir com
ela. A parede não era um obstáculo, mas um lugar de encontro. Cada toque de sua
palma, cada memória evocada, era um lembrete de que o amor transcende o tempo e
o espaço. Eles estavam separados, sim. Mas nunca distantes.
E assim, ao final de cada noite, antes de se deitar, ela
passava a mão na parede uma última vez e sussurrava: “Boa noite, meu amor.
Obrigada por ainda estar aqui.”
Silvia Marchiori Buss

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