Vamos Ver o Que a Vida Nos Reserva

Eva andava em volta do novo namorado como quem aprende de novo a caminhar depois de muito tempo parada.

Não era exatamente amor ainda.
Era uma espécie de incêndio tranquilo.

Ela ria mais do que de costume. Tocava o próprio cabelo sem perceber. Às vezes passava diante de um vidro qualquer — vitrine, porta, espelho esquecido — e se olhava com surpresa, como se estivesse reencontrando uma mulher que havia ficado guardada em alguma gaveta da vida.

Sentia-se desejada.

E esse sentimento tinha uma força antiga.
Como uma maré que retorna.

Caminhavam perto da água naquele fim de tarde.
Eva tirou os sapatos e deixou os pés entrarem no mar raso. A água fria subia pelos tornozelos enquanto o vento desarrumava seus cabelos.

Ela tinha os pés na água.
E a cabeça em fogo.

O namorado falava qualquer coisa — histórias, planos, frases soltas — mas Eva escutava apenas metade. A outra metade dela estava longe, vagando por um céu imaginário onde tudo parecia possível.

Sua cabeça andava na lua.

Havia dias em que acordava com uma alegria quase infantil. Colocava uma roupa qualquer e, de repente, a roupa parecia bonita. O corpo parecia vivo. A pele parecia lembrar que fora feita para ser tocada.

Eva era puro desejo.

Não aquele desejo barulhento e desesperado que às vezes aparece nos romances mal escritos.
Era um desejo silencioso, quente, quase luminoso.

Como uma brasa.

Ela caminhava ao lado dele sentindo uma espécie de vertigem doce. O mundo parecia levemente inclinado para a felicidade. Até as pequenas coisas ganhavam importância: o cheiro do sal, o som da água quebrando nas pedras, o modo como ele a olhava quando ela falava.

Eva pensava, sem dizer:

Vamos ver o que a vida nos reserva.

Não havia promessas entre eles.
Nenhum futuro desenhado.
Nenhuma palavra definitiva.

E era justamente isso que tornava tudo tão intenso.

Ela caminhava com os pés na água, o coração acelerado e a cabeça flutuando entre as estrelas. Como se a vida, depois de muito tempo, estivesse abrindo uma porta nova — uma porta que ainda não mostrava o que havia do outro lado.

Eva não tinha pressa.

Algumas histórias não começam com certezas.
Começam apenas com um passo dentro do mar
e uma mulher que volta a gostar de si mesma.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora