A Mulher que Caminhava Sobre as Nuvens

Julinha nunca foi leve por falta de peso.

Foi leve por excesso de sonho.

Quem a via andando pela rua — a bolsa pendendo do ombro, o vestido simples, os cabelos presos às pressas — talvez não percebesse nada de extraordinário. Mas havia um detalhe: ela não pisava exatamente no chão. Havia entre seus pés e o asfalto uma distância invisível, como se o mundo não conseguisse retê-la por completo.

Julinha já sofrera.

Sofrera o amor que parte sem aviso, a amizade que esfria, a palavra que machuca mais do que deveria. Sofrera também as pequenas perdas: a xícara favorita quebrada, o domingo que termina cedo demais, o silêncio depois de uma casa cheia.

Mas, em vez de endurecer, ela aprendera outra coisa.

Aprendera a subir.

Não era fuga.
Era escolha.

Quando a tristeza vinha — e ela vinha, sempre vinha — Julinha não a negava. Sentava-se ao lado dela como quem conversa com uma visita inconveniente, mas necessária. Chorava quando precisava. Sentia o peso no peito, a garganta apertada, o cansaço nas mãos.

Depois, devagar, erguia o rosto.

E subia um pouco.

Subia nas pequenas delicadezas: no cheiro do café recém-passado, na roupa branca estendida ao sol, no riso de uma criança que ela nem conhecia. Subia nas músicas antigas que ainda sabiam seu nome. Subia nas cartas que nunca enviara, mas que a organizavam por dentro.

Havia dias em que o céu estava carregado, nuvens densas e baixas, quase cinzentas. Nessas horas, caminhar sobre elas exigia coragem. Era preciso acreditar que, mesmo pesadas, as nuvens sustentam.

E sustentavam.

Julinha não ignorava a vida. Pagava contas, enfrentava filas, suportava notícias difíceis. Mas não deixava que o concreto invadisse seu coração por inteiro. Mantinha dentro de si um território de algodão — um espaço onde as quedas não eram definitivas.

Às vezes alguém lhe perguntava:
— Como você consegue ser assim?

Ela sorria, aquele sorriso que não explica tudo.
Não era que ela não tivesse dor.
Era que ela decidira não morar nela.

Julinha entendera cedo que o chão é necessário, mas não suficiente. Que viver exige raízes, sim — mas também exige céu.

E assim seguia.

Com os pés quase tocando o mundo,
e a alma caminhando sobre as nuvens.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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