Viver e Morrer...
Há duas coisas na vida que não são transitórias: nascer e morrer.
Todo o resto tenta passar. Às vezes passa mesmo. Outras vezes emperra, se
arrasta, cria raízes onde não foi chamado. A vida é menos movimento do que
insistência.
Nascer
não é começo — é ruptura. Um corpo arrancado de um estado onde não precisava
decidir nada. O primeiro gesto já é esforço. Respirar dói. O mundo chega grande
demais, barulhento demais, definitivo demais. Ninguém nasce pronto para
existir; nasce exposto. Desde o início, viver é um desequilíbrio permanente
entre dependência e resistência.
Não
há solenidade no nascimento. Há urgência. Há mãos que seguram, olhos que
avaliam, expectativas que se acumulam antes mesmo do nome. A vida começa sem
sentido e sem escolha. Tudo o que virá depois será tentativa.
Viver,
então, não se organiza como narrativa. Não avança em linha reta nem se sustenta
em aprendizados claros. É feito de dias repetidos, de cansaços que não aparecem
nas fotos, de pequenas decisões que ninguém reconhece. O corpo segue quando a
vontade falha. O hábito substitui o entusiasmo. A continuidade vira mérito
silencioso.
O
tempo não ensina; desgasta. Não cura; redistribui. Amores perdem forma, mas não
desaparecem. Perdas deixam de doer em certos horários, mas nunca somem por
completo. A alegria, quando aparece, é breve demais para virar promessa. A
tristeza aprende a se misturar com o cotidiano até parecer parte dele.
Morrer
também não carrega grandeza. Não chega para explicar nada. Não fecha histórias,
não resolve conflitos, não devolve o que faltou. A morte não é o oposto da vida
— é o limite do esforço. Um cessar sem conclusão, sem síntese, sem justiça.
Quando
alguém morre, o mundo não se rearranja. As coisas ficam onde estavam. O copo, a
cadeira, a frase interrompida. A vida continua nos outros, mas com um
descompasso novo, um peso que não se aprende a carregar — apenas se aceita.
Entre
nascer e morrer, não há promessa de sentido. Há exigência. Exigência de
atravessar o dia, de sustentar o corpo, de continuar apesar do que falta. E o
resto — amor, medo, esperança, fracasso — não é caminho nem lição. É o que se
acumula no intervalo. O que se arrasta, se acomoda, se gasta. O que permite que
a vida siga, imperfeita, até o fim.
Silvia
Marchiori Buss
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