Qualquer Domingo a Gente se Vê
Ela disse, quase distraída, como quem marca algo que já existe:
— Qualquer domingo a gente se vê.
Não
escolheu data. Domingo é esse dia frouxo, sem compromisso com o tempo, onde
tudo pode acontecer ou não. Ele concordou com a cabeça, mas por dentro guardou
o domingo como se guarda um endereço escrito a lápis.
Ela
chegou sem pressa. Domingo não cobra horário. O mundo parecia suspenso: lojas
fechadas, ruas vazias, o sino distante marcando horas que não diziam mais nada. Ela atravessou a praça como quem
atravessa um limiar — não havia pressa porque não havia retorno.
Ele
já estava lá.
Sentado
no banco de sempre, embora ela nunca tivesse visto aquele banco antes. Havia
folhas secas ao redor, mesmo não sendo outono. Algumas coisas envelhecem fora
do calendário.
Ele
não sorriu. Esperar altera algumas coisas que não voltam para o lugar.
Ela
sentou ao lado dele, e por um instante
achou que não estava totalmente ali. Como se seus pés tocassem o chão, mas o
resto flutuasse alguns centímetros acima. Ele, ao contrário, parecia pesado.
Denso. Como se tivesse aprendido o peso do tempo na prática.
—
Demorei? — ela perguntou.
Ele negou.
— Domingo não cobra horário... aqui o tempo não conta.
Ficaram
em silêncio. O tipo de silêncio que não constrange, apenas reconhece. Ao redor,
as coisas tinham uma luz estranha — nem sol, nem sombra. Um brilho de fim de
tarde que não promete noite nem manhã.
Ela
percebeu que ele não respirava como antes. Respirava fundo, mas devagar, como
quem já não precisa de oxigênio para existir.
—
Você está diferente — ela disse.
— Agora é diferente.
Ela
não perguntou de novo.
As
pessoas passavam longe, como se não os vissem. Ou talvez vissem e soubessem que
não era um encontro para ser interrompido. Domingo tem esse pacto silencioso
com o invisível.
Ela
pensou em perguntar quanto tempo ele a esperou. Mas desistiu de saber quanto
tempo tinha sido.
—
Então é aqui — ela disse.
Ele balançou levemente a cabeça, concordando.
— Sempre foi.
Ela
sentiu um frio leve, não de medo, mas de passagem. Como quando se atravessa uma
porta e o corpo demora a acompanhar a decisão.
Ele
se levantou primeiro. Estendeu a mão. A mão não era fria, mas também não era
quente. Era definitiva.
Ela
olhou para trás uma última vez. O banco, a praça, o domingo. Tudo permaneceu
exatamente onde estava, como se nunca tivesse precisado dela para existir.
Antes
de seguir, disse baixinho:
— Ainda bem que foi num domingo qualquer.
Ele
sorriu pela primeira vez.
— Domingo não cobra horário.
E
caminharam.
Sem pressa.
Sem volta.
Como quem finalmente chegou.
Silvia
Marchiori Buss
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