O Peso Exato do Edredom
A nevasca não batia — insistia.
O vento empurrava a montanha como quem testa a firmeza de uma casa antiga. Do
lado de dentro, porém, havia outro tempo: madeira aquecida, o cheiro leve de
chá esquecido sobre a mesa, a lareira respirando baixo, como um animal
doméstico.
A
cama ficava encostada na janela, por escolha. Eles gostavam de ver o mundo
acontecer enquanto permaneciam. Lençóis grossos, pesados, desses que não apenas
cobrem, mas acolhem. O edredom tinha o peso exato de um abraço que não aperta.
Ela
estava de lado, o joelho encaixado no espaço entre as pernas dele — não por
acaso. Nunca era. O corpo aprende caminhos que a cabeça não explica. Ele passou
os dedos pelo braço dela como quem lê algo em voz baixa: devagar, atento às
pausas, respeitando as pequenas interrupções da pele.
O
antebraço.
O pulso.
A curva discreta antes da mão.
Ela
reconheceu o toque como se reconhece uma música antiga: não surpreende, mas
sempre toca. Virou o rosto, encostou a testa no pescoço dele. Havia ali um
ponto exato onde o frio do mundo não chegava.
A
mão dele deslizou pelas costas dela, contando as vértebras, uma a uma, como se
cada uma guardasse um segredo breve. A pele respondia: um arrepio curto, a
respiração mudando de ritmo, um silêncio mais atento.
Ela
pousou a palma da mão no peito dele — não para provocar, mas para confirmar. O
coração estava ali. Sempre esteve. O corpo dela sabia disso antes de qualquer
lembrança.
As
pernas se ajustaram sozinhas.
Quadril com quadril.
Coxas que se entendem sem conversa.
Não
havia pressa. A montanha não permitia. O mundo estava suspenso lá fora,
soterrado de branco. Ali dentro, o tempo se dobrava. Eles percorriam o corpo um
do outro como quem caminha por um território conhecido, mas nunca gasto.
Ele
tocou a nuca dela, sentiu a linha dos cabelos, desceu pelo ombro e demorou ali,
porque alguns lugares pedem atenção. Ela respondeu com a mão nas costas dele,
acompanhando a respiração, como se pudesse guiá-la.
Os
corpos falavam baixo.
Não pediam.
Ofereciam.
Quando
os lábios se encontraram, foi sem urgência, sem promessa. Um beijo que não
queria ir além — queria ficar. A boca dele tinha gosto de chá e inverno. A
dela, de casa.
Lá
fora, a neve continuava caindo, indiferente.
Lá dentro, eles se tocavam com a calma de quem sabe que nem tudo precisa
avançar para existir inteiro.
E
aquela cama, naquela montanha, era exatamente o lugar onde o mundo fazia
sentido.
Silvia
Marchiori Buss
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