Nossos Dias de Domingo

 Tinha domingo que a gente falava demais.

Começava cedo, ainda com o quarto meio escuro, o corpo quente da noite. Um acordava primeiro, o outro fingia que ainda dormia, mas já estava ouvindo. Uma frase puxava a outra. Comentários bobos, lembranças repetidas, opiniões que já tinham sido discutidas mil vezes. Às vezes nem concordávamos, mas falávamos mesmo assim. Falávamos porque era domingo. Porque dava tempo.

Tinha domingo que não.
Cada um no seu canto da casa. Ele no sofá, eu na mesa. O rádio ligado baixo, uma música que ninguém escolheu de verdade. O café esfriando aos poucos, esquecido. A luz entrando pela janela sem pedir licença. Nenhuma pergunta atravessando o ar. Nenhuma necessidade de explicar o silêncio. A casa respirava sozinha, e nós junto com ela.

Não era afastamento.
Era descanso.

Tinha domingo que passava inteiro assim.
Sem troca de palavras, sem troca de olhares. Cada um dentro do próprio pensamento. E ainda assim havia companhia. A presença não fazia barulho, mas ocupava espaço.

E tinha os domingos de olhar.
Esses vinham sem aviso. Um gesto pequeno — eu mexendo a colher no café, ele ajeitando os óculos — e os olhos se encontravam. Não durava muito. Um segundo, talvez dois. Mas ali cabia tudo. O cuidado, o costume, o entendimento. Era um olhar que não perguntava nada e respondia tudo.

Depois disso, o dia seguia normal.
Como se nada tivesse acontecido. Mas tinha.

Às vezes a conversa cansava.
Às vezes o silêncio cansava também. Havia domingos em que um queria falar e o outro não. Em que um queria ficar quieto e o outro insistia em puxar assunto. A gente errava o tempo do outro. Ficava um pouco atravessado. Passava.

Nunca passava o estar ali.
Nunca passava dividir o mesmo dia, o mesmo espaço, a mesma demora.

Não era sobre planos.
Não era sobre fazer algo especial.
Era sobre ficar.

Ficar quando o domingo era cheio.
Ficar quando o domingo era vazio.
Ficar quando tudo parecia caber e quando nada parecia caber direito.

Domingo era isso:
não precisar render.
não precisar explicar.
não precisar ser melhor do que era.

Era só nós dois.
O tempo passando.
A casa em volta.
E o dia seguindo, sem pedir nada além de presença.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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