Joga a Chave Fora
Quando Adélia jogou a chave fora, não foi por raiva.
Foi por higiene.
A
chave estava ali, em cima da mesa da cozinha, ao lado de um limão cortado ao
meio e de um copo esquecido com restos de gin aguado. A mesma mesa onde, por
anos, eles dividiram cafés apressados, listas de mercado rabiscadas em
guardanapos, silêncios confortáveis de domingo. Tudo parecia simbólico demais
naquele instante, então Adélia empurrou o pensamento para debaixo do tapete e
focou no gesto prático: pegar a chave, abrir a janela, mirar o pátio interno e tlim.
Um som curto, seco, metálico. Como se algo tivesse finalmente decidido cair.
Ela
e Rafael já tinham rido daquela janela. Já tinham jogado ali migalhas de pão
para pássaros que nunca voltaram. Já tinham ficado nus, apoiados no parapeito,
inventando futuros improváveis. A chave sempre voltava para o mesmo lugar
depois disso. Sempre.
Rafael
dizia “calma” como quem joga água num incêndio achando que é vela. Dizia
“depois a gente vê”. Dizia “não é bem assim”.
Nunca era bem assim, mas também nunca era de outro jeito.
O
relacionamento deles foi ficando ácido sem aviso. Primeiro vieram os atrasos
explicáveis, depois os silêncios educados, depois a sensação de que Adélia
falava sozinha mesmo quando ele estava ali, encostado na bancada, mexendo no
celular. Ela passou meses espremendo limões numa relação que já tinha gosto de
coisa esquecida na geladeira, mas ainda consumível “se ninguém prestar muita
atenção”.
—
Tu exagera — Rafael disse na última conversa, coçando a barba como se ali
houvesse respostas profundas.
Adélia pensou em quantas vezes ele tinha entrado naquele apartamento usando
aquela chave. Pensou no som dela girando na fechadura, sempre o mesmo, sempre
prometendo retorno.
Não
respondeu. Pensou que exagerar era insistir. Pensou que exagerar era traduzir
silêncios. Pensou que exagerar era continuar.
Rafael
saiu levando poucas coisas: o casaco, o carregador, a convicção de que era um
cara razoável. Deixou para trás o apartamento, duas plantas meio mortas e uma
coleção de frases que Adélia nunca mais queria ouvir.
Ela
não chorou.
Riu.
Um riso curto, desses que arranham a garganta e não pedem testemunha.
Foi
até a cozinha, fez uma limonada forte demais. Sem açúcar. Bebeu assim mesmo,
fazendo careta, achando justo. Algumas coisas não precisam ser adoçadas para
passar.
O
celular vibrou horas depois.
Nome dele na tela.
Adélia
virou o telefone com a tela para baixo. Ficou olhando para a mesa. Para o
espaço onde a chave costumava ficar, como se ainda estivesse ali por hábito,
invisível, insistente.
Levantou-se,
abriu a janela de novo. Não por saudade. Por conferência.
A
chave já não estava lá.
Adélia
empurrou o limão para o canto da mesa. O caldo escorreu devagar, pegajoso. Mais
tarde ela limparia. Ou não.
O
celular vibrou de novo. Ela deixou vibrar até cansar.
Abriu
a janela só para confirmar que nada tinha mudado. O pátio era o mesmo, feio e
silencioso, com roupa alheia pendurada em varais tortos. Pensou na chave em
algum lugar lá embaixo, talvez presa numa raiz, talvez no ralo, talvez sendo
ignorada como tantas coisas tinham sido entre eles.
Fechou
a janela.
Sentou-se
no chão da cozinha porque a cadeira parecia longe demais. Ficou ali um tempo
que não soube medir. Depois levantou, lavou o copo, quebrou o gelo que sobrou
na pia com a mão.
O
gosto azedo ainda estava na boca.
Silvia
Marchiori Buss
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