Depois da Ferida
A ferida “apareceu” num dia comum, exatamente como todos.
Daquelas que não prometem nada e cumprem o que prometem.
Olga
estava na cozinha quando sentiu que alguma coisa tinha saído do lugar. Não foi
uma dor que se aponta com o dedo, não foi um susto. Foi um vazio repentino —
como quando a luz apaga e a gente demora alguns segundos para entender que não
é noite. O telefone ainda estava na mão. Do outro lado, a voz já tinha parado
de falar.
Ela
desligou sem perceber e se sentou.
Ficou
olhando para a mesa como se ali estivesse escondida a parte que faltava do
mundo. O copo com água tinha marcas de dedos. A toalha tinha uma dobra torta. O
relógio, na parede, seguia no mesmo som de sempre, e isso era quase ofensivo.
Nos
dias seguintes, Olga fez o que precisava ser feito. Banho, roupa, rua, compras,
respostas curtas. Dizia “tudo bem” com a mesma boca que não acreditava. Existia
um atraso dentro dela, como se a vida estivesse sempre dois passos à frente. As
pessoas falavam, as buzinas passavam, o chá esfriava — e tudo acontecia sem que
ela realmente chegasse.
Beatriz,
a vizinha do apartamento ao lado, foi quem percebeu primeiro. Era dessas
mulheres que não rodeiam as coisas, não porque são duras, mas porque aprenderam
que a delicadeza também pode ser direta.
No
elevador, segurando a porta com o antebraço, Beatriz olhou Olga de cima a
baixo, sem maldade, só presença.
—
Tu emagreceu — disse.
Olga
deu de ombros, como se isso fosse um comentário sobre o clima.
—
Deve ser o calor.
Beatriz
não insistiu. Só ficou ali um segundo a mais, como quem se oferece em silêncio.
Antes da porta fechar, falou baixo:
—
Se tu precisar de qualquer coisa, eu tô aqui.
Olga
concordou com um breve movimento, mas não sabia ainda o que era “precisar”. Às
vezes, precisar é uma palavra grande demais.
A
ferida não doía o tempo todo. Esse era o pior detalhe. Em certos momentos ela
parecia nem existir: Olga conseguia até rir de uma bobagem na televisão,
responder uma mensagem, atravessar a rua sem tropeçar. E então vinha um cheiro
— sabão em pó, café passado, perfume barato — e o chão desaparecia de novo.
Bastava uma música no rádio, o estalo de uma chave sobre a mesa, a cadeira
puxada com pressa, e era como se o ar ficasse curto.
Em
uma dessas tardes, Olga abriu uma gaveta procurando elástico, pilha, qualquer
coisa que justificasse estar de pé. Encontrou um caderno no fundo, enterrado
entre papéis antigos e uma fita que já nem tocava mais. Era um caderno simples,
capa escura, canto amassado. Um objeto de outra vida.
Sentou
no sofá com ele no colo. Abriu.
As
páginas estavam limpas demais, quase provocando. Pegou uma caneta e ficou um
tempo parada, sem saber o que fazer com a própria mão.
Não
escreveu sobre a “ferida” que aparecera .
Não escreveu sobre o que faltava.
Escreveu sobre o dia.
Sobre
o ônibus atrasado na esquina.
Sobre a menina que mastigava chiclete com raiva.
Sobre uma mulher desconhecida que chorava sem escândalo, só com um lenço
molhado e os olhos fixos no nada.
Escreveu
sem “início”, sem “fim”, sem intenção de ser coisa nenhuma.
Quando
percebeu, tinha preenchido meia página. Leu e não achou bonito. Achou
verdadeiro. E isso, naquele momento, já era mais do que ela tinha.
No
outro dia, não escreveu.
No seguinte, também não.
Mas
uma semana depois, escreveu duas linhas: “Hoje eu não consegui.” E fechou o
caderno como quem fecha uma porta com cuidado para não acordar ninguém.
Beatriz
apareceu no fim da tarde, com um potinho na mão. O cheiro de comida quente
invadiu a sala toda.
—
Fiz a mais — disse, e isso era a forma dela de oferecer afeto sem cerimônia.
Olga
abriu espaço na cozinha, sem saber o que dizer. Comer parecia uma tarefa
enorme. Mas ela aceitou, porque recusar era mais difícil.
Beatriz
olhou ao redor: a louça, a casa quieta, as cadeiras no lugar exato.
—
Tá dormindo bem?
Olga
deu uma risada curta, sem humor.
—
Eu deito.
Beatriz
concordou, como quem entende a diferença inteira entre as duas coisas.
Depois
do jantar, enquanto Beatriz lavava uma panela que nem tinha sujado — só para
ficar ali mais um pouco —, viu o caderno na ponta do sofá. Não pegou. Só
apontou com o queixo.
—
Isso aí é teu?
Olga
demorou para responder.
—
Era… meu. Acho.
Beatriz
secou as mãos no pano e se aproximou devagar, sem invadir.
—
Escreve.
—
Não é bem escrever — Olga disse. — É… anotar coisa. Pra passar o tempo.
Beatriz
olhou Olga com uma seriedade mansa.
—
Passar o tempo é um jeito de sobreviver a ele.
Olga
não respondeu. Ficou com aquela frase atravessada, não como conselho, mas como
algo que encaixava num lugar que ela não sabia nomear.
Com
o tempo, Olga começou a repetir o gesto. Não todos os dias. Sem disciplina, sem
ritual bonito. Havia dias em que o caderno ficava fechado, jogado no sofá, como
um objeto inútil. Em outros, ela escrevia três linhas tortas e fechava de novo,
exausta, como se tivesse carregado um peso.
Em
certos dias, vinha raiva.
Raiva
de quem dizia “o tempo cura”, como se o tempo fosse um remédio e não um
corredor longo. Raiva de quem pedia “seja forte”, como se força fosse botão.
Raiva, sobretudo, da própria ideia de que a vida seguia normalmente.
E
nesses dias, Olga escrevia pior — e era isso que prestava. Porque não tinha
intenção de ficar bonito. Tinha intenção de caber.
Um
sábado, Beatriz trouxe duas xícaras de café e sentou no sofá sem ser convidada,
como alguém que já conhece o formato da dor alheia e sabe que pedir licença, às
vezes, é dar chance para a pessoa dizer não.
Ficaram
um tempo sem falar. O silêncio entre elas não tinha constrangimento, tinha
respeito.
Depois,
Beatriz perguntou:
—
Tu escreve pra quem?
Olga
olhou para o chão, pensou, sentiu a garganta fechar.
—
Eu escrevo pra… não esquecer de mim.
Beatriz
não disse nada. Só segurou a xícara com as duas mãos, como se aquilo também
exigisse cuidado.
Olga
percebeu então — sem alarde — que a arte não tinha entrado para consertar nada.
Não veio para fechar a ferida, nem para explicar o que tinha acontecido. A arte
só ofereceu um lugar onde ela podia existir sem justificar o próprio espanto.
A
ferida ensinou o limite.
A arte, o contorno.
Houve
um dia em que Olga tentou escrever uma lembrança direta. Uma frase apenas. E a
caneta travou. Não por falta de coragem, mas por excesso de realidade. Ela
desistiu. Fechou o caderno. Foi até a janela e ficou olhando o movimento da
rua, os vizinhos descendo com sacolas, um cachorro puxando o dono, uma criança
correndo. Tudo tão igual ao que era, e ao mesmo tempo tão diferente.
Beatriz
apareceu na porta à noite.
—
Vim te ver — disse.
Olga
abriu espaço sem palavras.
Sentaram.
Depois
de um tempo, Olga falou, quase num sussurro, como se confessasse algo feio:
—
Às vezes eu penso que escrever é uma traição. Como se eu estivesse… fazendo
disso uma coisa.
Beatriz
virou o rosto devagar.
—
Tu não tá fazendo “disso” uma coisa — respondeu. — Tu tá tentando dar forma pro
que não tem.
Olga
sentiu vontade de chorar, mas não chorou. Não por controle. Por economia. O
choro também cansa.
Passaram-se
meses. A ferida não sumiu. Ela mudou de lugar. Às vezes ficava quieta. Às vezes
aparecia sem avisar e ocupava a casa inteira. Olga aprendeu a reconhecer os
sinais: um aperto no peito sem motivo, uma irritação por nada, uma vontade de
fugir do próprio corpo.
E
nesses dias ela sabia: talvez o caderno estivesse ali. Não como cura. Como
chão.
Hoje,
quando alguém lê um texto de Olga e diz que é bonito, ela sente um desconforto
que não sabe explicar. Porque bonito nunca foi a intenção. O que existe ali é
resto, tentativa, respiração. É a vida sendo organizada em palavras não para
virar poesia — mas para não virar pedra.
A
ferida ainda aparece, inesperada. Senta à mesa. Atravessa conversas. Se mete em
dias felizes, como visita inconveniente.
A
arte também.
E
elas convivem sem acordo formal, como duas pessoas que dividem o mesmo espaço
porque não há outra opção.
Olga
aprendeu assim:
não foi força, nem luz, nem grande lição.
Foi um gesto pequeno repetido quando dava.
Uma caneta. Um caderno.
E a coragem discreta de não fingir que estava tudo em ordem.
Beatriz
continua ali, do lado, sem prometer nada. Às vezes só com um café. Às vezes só
com presença. Como quem já sabe, que certas feridas não precisam serem
explicadas — só de alguém que não se assuste com o silêncio.
E
Olga segue.
Não melhor. Não curada.
Apenas viva, do jeito possível.
Silvia
Marchiori Buss
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