Como Não Querer Você
Eu tentei.
Não foi um gesto heroico, nem um juramento solene — foi mais como fechar uma
janela acreditando que o vento obedeceria. Tentei não querer você do mesmo modo
que se tenta não ouvir um relógio num quarto silencioso.
Apaguei
rastros: palavras que quase enviei, caminhos que quase percorri, músicas que
quase toquei. Fiz silêncio por fora. Por dentro, você continuava andando,
abrindo portas que eu jurava trancadas. Há pessoas que não batem. Entram.
Como
não querer você se o seu nome aparece quando não estou pensando em nada? Se ele
surge entre um gole de café e outro, entre um passo e o seguinte, como uma
sombra que não se explica pela luz? Eu não pensei em você — e, ainda assim,
você estava ali, sentado no canto da tarde, observando meu esforço de parecer
normal.
Dizem
que o tempo ensina. Comigo, conspirou. Fez de você um detalhe recorrente: no
cheiro de chuva que antecede a noite, no jeito lento com que as coisas se
quebram, na pausa entre duas frases mal ditas. Você virou intervalo. E é nos
intervalos que mora o que não sabemos nomear.
Não
é saudade.
Saudade tem contorno, tem passado.
O que sinto por você é presença deslocada. Um agora que insiste, mesmo quando
tudo aponta para depois — ou para nunca.
Eu
poderia listar razões. Poderia alinhar argumentos, como quem constrói um muro
alto demais para ser atravessado. Mas muros não funcionam com quem já conhece o
mapa do outro lado. Você sabe onde pular. Sempre soube.
Há
noites em que quase consigo. Quase não querer você. Nessas horas, o mundo
parece organizado demais, simétrico demais — como uma sala onde nada foi
esquecido sobre a mesa. É quando percebo que querer você é o meu desvio. O
ponto fora da curva. O erro bonito.
Como
não querer você, se até a ausência aprende o seu formato?
Se, quando você não está, o espaço não se fecha — apenas espera.
Não
te escrevo.
Não te chamo.
Não te prometo nada.
Ainda assim, sigo aqui — falhando em silêncio na tentativa de não querer você.
O resto não precisa de nome.
Silvia
Marchiori Buss
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