Chão Firme
Ela pensou, por um instante, que endurecer fosse virar pedra.
E pedra não sente saudade. Isso parecia uma vantagem injusta.
O
que ela queria não era frieza. Era alguma coisa parecida com um osso novo
crescendo por dentro. Um apoio invisível. Algo que não se partisse a cada
detalhe mínimo: o copo fora do lugar, a música que tocava no rádio, a palavra
“nós” atravessando uma conversa qualquer. Queria endurecer para não cair de
joelhos diante do cotidiano — esse território cheio de armadilhas que ninguém
percebe.
Endurecer
por dentro não era deixar de amar.
Nunca foi.
Era aprender a sustentar o peso do amor quando ele vira ausência.
Ela
tentou caminhos práticos. Silêncios longos. Cafés fortes demais. Rotinas duras,
quase militares. Tentou dobrar a saudade como quem dobra roupa: com cuidado,
alinhando as bordas, fingindo que assim ela ocuparia menos espaço. Não ocupou.
A saudade não se dobra. Ela encontra frestas.
Então
começou devagar. Em camadas.
Primeiro,
o corpo. Ombros mais firmes. Passos menos hesitantes. Um jeito novo de sentar
sem se curvar tanto. Depois, as palavras. Passou a usar menos adjetivos, a
falar só o necessário, a guardar certas lembranças como quem guarda objetos
frágeis numa prateleira alta — não para esquecer, mas para não esbarrar nelas o
tempo todo.
O
coração resistiu.
Ele não queria endurecer.
Queria continuar aberto, mole, exposto — como se ainda houvesse alguém
chegando.
Mas
ela insistiu.
Endurecer
por dentro não era virar gelo. Era criar limite. Contorno. Era saber onde a dor
começa e onde ela termina, mesmo que termine longe. Era parar de pedir desculpa
por sentir falta. Era aceitar, sem drama, que a saudade não é inimiga. É
consequência.
Algumas
noites davam errado. A armadura rachava. Bastava uma lembrança específica: o
jeito como ele dizia seu nome, a distração ao rir, o silêncio confortável que
só existe entre quem viveu muito junto. Nessas horas, ela não endurecia. Cedia.
Chorava sem espetáculo, sem explicação, sem pressa.
E
depois… levantava.
A
força não chegou como promessa.
Chegou como hábito.
Endurecer
por dentro passou a ser levantar mesmo quando o chão ainda chamava. Continuar
colocando um prato a menos na mesa sem transformar isso em tragédia pública.
Não exigir que o mundo entendesse sua dor — mas também não escondê-la para
caber melhor nos outros.
Com
o tempo, ela percebeu: a saudade não endurece.
Ela amadurece.
Fica
menos afiada, mais profunda. Menos grito, mais presença. Não desaparece.
Aprende a se organizar, a morar junto. Como uma cicatriz que não dói o tempo
todo, mas nunca some.
E
ela — endurecida por dentro, mas longe de estar vazia — seguiu vivendo.
Não por superação.
Por lealdade.
Porque
amar alguém a ponto de sentir saudade assim não é fraqueza.
É matéria-prima.
E
algumas pessoas não nascem para virar pedra.
Nascem para virar chão firme — desses que sustentam o peso da ausência e, ainda
assim, permitem que a vida continue passando.
Silvia
Marchiori Buss
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