Véspera
Prefácio
“Viver
é estar em véspera: do amor, da perda, da coragem ou do silêncio. E há dias em
que a véspera é o que nos mantém vivos.”
Este
livreto nasceu dos intervalos. Das pausas antes da fala, do silêncio entre duas
escolhas, da respiração que antecede o grito ou o perdão. Cada capítulo que se
segue é uma janela aberta para personagens que não sabem — ainda — o que fazer
com o que sentem. Eles vivem no quase. No ainda não. No talvez. E é justamente
aí que se desenrola a alma da história.
Véspera
não oferece recomeços fáceis, nem finais redentores. As pessoas aqui não são
heróis nem mártires. São como nós: atravessadas pelo tempo, por ausências, por
desejos que se desorganizam. Levam consigo a esperança miúda de que alguma
coisa, mesmo que pequena, ainda possa acontecer.
Clara,
Vicente, Irene, Mariana. Todos diferentes. Todos à beira. Cruzam-se sem saber
que suas dores têm raízes parecidas. Cada um deles tenta — à sua maneira —
deixar de ser espera e tornar-se presença. Às vezes conseguem. Outras não. Mas
aprendem, ao menos, que o encontro pode estar em quem divide o mesmo estado de
véspera.
Este
livro não pede pressa. Não é para ser lido em uma tarde, mas sentido aos
poucos. Ele não grita. Sussurra.
E
talvez, no sussurro, você também se encontre.
Silvia
Marchiori Buss
Porto Alegre, inverno de um ano qualquer — à véspera de algo que talvez já tenha
começado.
Capítulo
1 – Clara e o Barulho das Lâmpadas
Clara
começou a ouvir um zumbido nas lâmpadas da casa. Era sutil, quase como um
sussurro elétrico, um ruído que só aparece quando o silêncio é fundo demais. No
início, achou que fosse coisa da sua cabeça — e talvez fosse. O que ela sabia,
com certeza, é que aquele som começou no mesmo dia em que deixou de se
reconhecer no espelho.
A
casa era a mesma. As xícaras brancas no armário de madeira clara, o tapete
encardido de sol e tempo na sala, os porta-retratos com sorrisos fixos de
quando ainda se acreditava em plenitude. Tomás, seu marido há vinte e três
anos, ainda estava lá também, com seus livros sobre vulcões, suas camisas
dobradas de forma meticulosa e aquele hábito irritante de assoviar quando não
sabia o que dizer.
Mas
havia um vazio que ninguém nomeava.
Na
véspera do aniversário de casamento, Clara acordou cedo. Preparou o café, como
fazia todos os dias, mas desta vez ficou observando o líquido escorrer pelo
filtro como se escutasse uma despedida. O cheiro era o mesmo, mas algo dentro
dela se havia deslocado. Um miolo frouxo de quem sabe que não ama mais e, pior,
de quem também sabe que já não é amada.
Tomás
veio à cozinha, deu-lhe um beijo na testa — não um beijo de amor, mas de hábito
— e pegou sua caneca. Não falou sobre o dia seguinte. Não perguntou se ela
queria jantar fora. Não lembrou da viagem prometida à Serra.
Ela
também não lembrou em voz alta. A véspera é feita disso: de tudo que se cala.
Passou
o dia arrumando pequenas coisas que não precisavam ser arrumadas. Refez
gavetas, dobrou meias, limpou vidros. Ao final da tarde, sentou-se no sofá e
encarou a própria vida como quem observa uma cidade prestes a ser demolida.
Sabia que, no dia seguinte, nada mudaria — e era isso que doía mais. O amanhã
seria igual a hoje, e isso a matava um pouco a cada dia.
À
noite, na cama, Tomás virou-se para o lado e adormeceu em segundos. Clara ficou
de olhos abertos, ouvindo o zumbido das lâmpadas. Ele não a tocava há meses.
Não era má pessoa. Só tinha parado de olhar para ela como mulher.
Ela,
por sua vez, tinha parado de se olhar como alguém que ainda esperava.
Amanhã
era aniversário de casamento. Mas não haveria flores, nem bilhetes, nem
discussão. Só um café morno e outro dia igual.
Era
a véspera do fim. E ela, silenciosamente, sabia.
Capítulo
2 – O Quase Amor de Vicente
Vicente
caminhava pela cidade como se ela fosse um sonho do qual ele não tivesse
acordado completamente. Era fotógrafo de rostos, como gostava de dizer. Gente
que queria se ver bonita, se ver por outro ângulo, se ver como nunca foi vista.
Tinha sensibilidade para captar a dor atrás do riso, a dúvida por trás da pose.
Mas não tinha a mesma sensibilidade para si.
Vivia
só. Não por escolha romântica, mas por acúmulo de fracassos. Vicente sempre se
envolvia com pessoas que vinham antes do tempo ou depois demais. Amores às
vésperas. Como Ana.
Ana
tinha surgido numa exposição de retratos em preto e branco. Usava um vestido
azul-marinho e um lenço no cabelo. Sorriu para uma fotografia de uma senhora
idosa sentada à beira de um rio. Disse que aquela mulher parecia sua avó, e
ficou ali, parada, tempo demais. Vicente se aproximou, comentaram sobre luz,
sobre ausência, sobre lembranças. A conversa fluiu como se já tivessem falado
antes — como se estivessem retomando uma história interrompida.
Saíram
para um café. Depois para outro. Começaram a se ver. Mas Ana tinha uma sombra.
Um noivo em outra cidade. Um emprego em suspenso. Um plano que nunca incluía
Vicente de fato. E Vicente, mais uma vez, se apaixonou por uma mulher à beira
da partida.
Não
foi abandono. Foi dissolução. Ana se afastou devagar, sem drama, sem ruptura.
Parou de responder rápido, passou a inventar viagens. Vicente sabia. Sabia
desde a primeira vez que ela hesitou ao dizer “até logo”. Mas ficou. Ficou
esperando o dia em que ela voltaria. Só que esse dia era sempre amanhã. E
amanhã, como ele aprendeu, nunca chega.
Agora,
na véspera de seu aniversário de cinquenta anos, Vicente olhava suas próprias
fotos. Procurava, nelas, uma alegria que justificasse a idade. Encontrava o dom
de ver o outro — mas não se via. Não havia em seu rosto nenhuma certeza. Só um
eterno estado de espera.
Foi
nesse dia que ele decidiu comprar uma passagem de ônibus para uma cidade
qualquer, onde não houvesse lembrança de Ana, nem do pai, nem dos aniversários
esquecidos.
Partiria
amanhã. Era o que ele dizia a si mesmo.
Mas,
naquela noite, na véspera da fuga, ele viu uma mulher sentada no banco da
praça. Tinha o rosto inclinado para o lado, como se ouvisse algo que ninguém
mais ouvia.
Era
Clara. Mas Vicente ainda não sabia disso.
Capítulo
3 – O Filho que Não Voltou
Irene
nunca teve o hábito de contar os dias. Preferia o calendário mental das
emoções: lembrava-se do cheiro das jabuticabas no quintal, do vento gelado que
vinha do sul em maio, do som da chaleira nas manhãs em que o filho ia para a
escola. A memória dela era feita de sensações, não de datas. Por isso, demorou
para perceber que já fazia quase dois anos desde a última ligação de Daniel.
Ele
não partiu brigado. Nem choraram na despedida. Só disse: “vou tentar a vida
longe, mãe”. E ela, com o nó na garganta de toda mãe que sabe o que não pode
impedir, apenas respondeu: “então vá. E viva”.
Na
véspera de completar setenta anos, Irene abriu o armário e vestiu o casaco azul
que usava apenas em datas especiais. Não porque esperasse comemorações, mas
porque queria sentir-se menos invisível. Foi até a confeitaria da esquina e
comprou dois pedaços de torta de nozes. Um para ela. O outro… bem, ela dizia
que era “para caso alguém aparecesse”.
Sentou-se
à mesa, arrumou os talheres com esmero, acendeu uma vela e, por um instante,
teve a certeza de que Daniel bateria à porta. Como num filme. Como numa
reparação.
Mas
Daniel não voltou.
E
Irene soprou sozinha a vela da véspera.
Foi
então que ouviu, vindo da rua, um barulho de passos. Levantou-se, o coração aos
pulos — mas não era o filho. Era uma mulher de olhar vago, rosto bonito e
expressão quebrada. Estava parada, olhando o portão com a indecisão de quem não
sabe se entra ou se volta.
Irene
abriu o portão. “Está tudo bem, minha filha?”
A
mulher hesitou. Disse apenas: “Acho que estou procurando um lugar onde ficar
esta noite.”
E
Irene, sem saber por que, respondeu:
“Entre. Hoje é véspera do meu aniversário. Nenhuma mulher devia passar a
véspera de nada sozinha.”
Clara
entrou. Irene ainda não sabia, mas acabara de acender a primeira luz em muito
tempo.
Capítulo
4 – A Janela de Mariana
Mariana
observava a rua do décimo andar como quem espia um palco onde todos têm papéis,
menos ela. O marido, Sérgio, saía para o trabalho todos os dias às sete em
ponto, perfumado, preciso. O filho, Lucas, ia para a escola com os fones nos
ouvidos, já na adolescência da indiferença. E ela ficava — entre o sofá e a
louça, entre o celular e as receitas que nunca fazia. Um tempo suspenso.
Nunca
foi infeliz. Mas também não sabia dizer se era feliz. Estava num lugar de
meio-termo, onde a vida vai se acumulando em pequenas desistências. Parou de
escrever, de dançar, de conversar com amigas. Mariana era, agora, aquela que
cuidava, organizava, esperava.
Na
véspera do casamento de uma prima distante, recebeu uma mensagem no celular:
"Faz tempo que não vejo teu sorriso. Tudo bem contigo?"
Era de Vicente. Um conhecido antigo. Nunca houve entre eles uma história — mas
poderia ter havido. Tiveram um verão de olhares longos e nenhuma palavra, anos
atrás, quando ambos ainda pareciam acreditar em começos.
Respondeu
com um emoji. Depois apagou. Depois respondeu de novo:
"Acho que deixei de sorrir por dentro. Mas ninguém vê."
Vicente
respondeu com um áudio. A voz era a mesma, grave e gentil:
"Você ainda está aí. Mesmo que só em véspera."
Mariana
foi à janela e olhou para o nada. Pela primeira vez em muito tempo, não se
sentiu invisível. Pensou em sair. Pensou em pegar um ônibus qualquer e
desaparecer por um fim de semana.
Mas
não saiu.
Só
deixou a janela aberta, como quem começa a ventilar um coração empoeirado.
Capítulo
5 – O Fotógrafo e a Mulher da Praça
Vicente
chegou à praça sem pressa, como fazia sempre que precisava respirar longe de
si. Era fim de tarde, o céu começava a perder a cor com lentidão. Sentou-se no
banco de madeira descascado, abriu seu caderno de anotações e rabiscou o que
lhe vinha: palavras soltas, ideias de retratos nunca feitos, nomes de pessoas
que passaram por ele como brisas.
Foi
então que a viu: a mulher do banco vizinho.
Tinha
um jeito ausente, como se a alma ainda não tivesse descido junto com o corpo.
Os cabelos escuros estavam presos num coque malfeito, e os olhos, ainda que
opacos, denunciavam algum incêndio interno recente.
Vicente
não quis perturbar. Mas era fotógrafo — e fotógrafos têm o vício do olhar
atento. Pegou sua câmera discreta e, com respeito, registrou aquela imagem: a
mulher olhando o vazio, com a luz do entardecer se acomodando sobre seus ombros
como um xale.
Ela
percebeu. Não se incomodou. Apenas disse:
— Precisa de autorização pra capturar tristeza?
Ele
baixou a câmera. Sorriu, embaraçado.
— Não se fosse pra devolver em beleza.
Ela
também sorriu, pela primeira vez. Pequeno, quase um susto.
— Então devolva quando conseguir. Ainda não sei se fui embora ou se só estou
parada.
—
Eu também — respondeu ele.
Não
se disseram os nomes. Só compartilharam o tempo. Um tempo rarefeito, véspera de
qualquer coisa que ainda não tinha nome.
Quando
Clara se levantou para ir embora, Vicente não pediu número, nem endereço. Disse
apenas:
— Se um dia quiser se ver por outro ângulo... me procure. Estúdio Pérola, Rua
Gonçalves Dias.
Ela
assentiu com um gesto quase imperceptível e caminhou devagar, como quem ainda
não sabia se voltava ou se desaparecia.
Vicente
ficou olhando até ela sumir. Soube, sem entender por que, que aquela mulher
ainda voltaria a fazer parte da sua história
Capítulo
6 – Irene Serve Chá
Clara
passou a noite no quarto de hóspedes da casa de Irene. Dormiu mal. Não pelo
desconforto, mas pelo excesso de pensamentos. Sentia-se num lugar entre o medo
e o alívio. Como se houvesse feito o movimento certo de ir embora, mas ainda
sem saber aonde queria chegar.
Na
manhã seguinte, encontrou Irene na cozinha, vestindo um avental florido e
esquentando água para o chá.
—
Eu tenho café, se preferir. Mas de vez em quando gosto de fazer essas
delicadezas que só a gente entende — disse Irene, sorrindo.
Clara
sorriu de volta, com os olhos cansados. Sentou-se à mesa.
— Chá está ótimo. Delicadeza também.
Tomaram
chá em silêncio por um tempo. Irene olhava para Clara como quem não queria
invadir, mas reconhecia ali uma dor conhecida.
—
Às vezes, a gente parte antes do corpo partir — disse, mexendo a colher com
calma. — Eu também fui embora há muito tempo. Mas fiquei na mesma casa. O que
cansa não é partir. É ficar quando já se foi.
Clara
sentiu a garganta arder.
— Você tem filhos?
—
Tive um. Daniel. Está por aí. Longe. Não manda notícias há dois anos. Mas eu o
espero.
Deixei o quarto dele arrumado. A torta de nozes do meu aniversário… sempre
compro dois pedaços.
—
Ele pode voltar — arriscou Clara, com doçura.
Irene
deu de ombros.
— Pode. Mas se não voltar, pelo menos eu vivi na véspera. A véspera é a parte
mais bonita de uma esperança.
Depois
do chá, Clara agradeceu, se despediu com um abraço e caminhou sem rumo, ainda
sem saber para onde iria. Mas com um sentimento novo no peito: havia uma calma
diferente em saber que existiam outras pessoas também suspensas entre o que foi
e o que talvez nunca venha.
Talvez
não estivesse tão só
Capítulo
7 – Estúdio Pérola
Clara
ficou três dias vagando entre cafés pequenos, pensões baratas e bancos de
praça. Carregava uma bolsa com poucos pertences, e uma coragem que ainda não
sabia usar. Tomás não ligou. Não mandou mensagem. Era como se o mundo em que
vivia tivesse continuado a existir sem o seu contorno. Aquilo, paradoxalmente,
lhe deu força.
Na
manhã do quarto dia, atravessou a rua Gonçalves Dias e parou diante de uma
vitrine empoeirada com a inscrição desbotada:
“Estúdio Pérola – Retratos de Verdade”.
Havia
algo de fora do tempo naquele lugar. Cortinas grossas, uma máquina antiga
exposta num canto, e dezenas de fotografias espalhadas pelas paredes: velhos
sorrindo com os olhos, crianças que pareciam eternas, mulheres que guardavam
segredos nos traços.
Ela
hesitou. Mas entrou.
Vicente
estava atrás do balcão, digitando algo em seu notebook. Levantou os olhos e,
por um segundo, ficou sem saber se era sonho ou memória.
—
Achei que você não voltaria — disse, suavemente.
Clara
sorriu.
— Eu também achei. Mas… tô aqui.
Ele
gesticulou em direção a uma poltrona azul, gasta nas bordas.
— Quer um retrato?
—
Quero — respondeu, quase num sussurro. — Quero me ver de um jeito que me
devolva.
Vicente
ajustou a luz, preparou o cenário, mas demorou a pegar a câmera. Olhava para
Clara com atenção — não como homem, mas como artista. Como quem tenta encontrar
uma fresta.
—
Posso fazer uma pergunta antes?
—
Pode.
—
Qual foi a última coisa que te fez sentir viva?
Ela
ficou em silêncio. Respirou fundo. E respondeu:
— Quando acordei e entendi que eu podia ir embora. Mesmo sem saber para onde.
Vicente
não disse nada. Fotografou. Três, quatro cliques apenas. Depois ofereceu um
café, que tomaram em silêncio, com o cuidado de quem respeita as palavras que
ainda não chegaram.
Na
saída, Clara olhou para ele e disse:
— Eu fui embora de casa. Mas acho que ainda tô chegando em mim.
Ele
sorriu.
—Às vezes demora mesmo. Mas chega.
Capítulo
8 – A Véspera de Mariana
A
janela já não bastava.
Mariana
passou a manhã inteira ensaiando sair. Vestia-se, penteava o cabelo, passava
batom — depois, sentava-se de novo e ficava ali, entre a vontade e o medo.
Lembrava das mensagens de Vicente. Do tom de voz. De como, anos atrás, ele a
viu mesmo quando ninguém mais via.
No
fim da tarde, decidiu. Disse ao marido que iria ao centro comprar um presente
para a prima. Sérgio não questionou. Apenas assentiu com a cabeça, concentrado
no laptop. Lucas estava no quarto, com os fones no volume máximo. Ninguém
percebeu o perfume que ela usava.
Tomou
um ônibus que não pegava havia anos. Andou sem direção até parar diante de uma
vitrine antiga. “Estúdio Pérola – Retratos de Verdade”.
—
Vicente? — chamou, ao entrar.
Ele
apareceu, vindo do fundo, e demorou um segundo para reconhecê-la. Os olhos, no
entanto, acenderam com familiaridade.
—
Mariana…
—
Eu… não sei exatamente por que vim.
Ele
não respondeu. Apenas apontou para a mesma poltrona azul onde Clara estivera
poucas horas antes.
—
Senta-se. Vamos conversar. Nem tudo precisa ter motivo claro. Às vezes, a
véspera também é lugar de encontro.
Ela
sorriu. Era a primeira vez, em muito tempo, que se sentia dentro de si.
Conversaram
por uma hora. Não falaram sobre o passado. Nem sobre casamento, filhos,
rotinas. Falaram sobre o que sonhavam quando eram outros. Sobre músicas. Sobre
ruas antigas. Sobre o gosto de algo que ainda não tinha nome.
Na
hora de ir embora, Mariana hesitou na porta.
— Posso voltar outro dia?
Vicente
assentiu.
— Aqui, tudo é véspera de algo bom. Mesmo que a gente ainda não saiba o quê.
Ela
saiu com leveza. Na calçada, respirou fundo. Pela primeira vez, teve vontade de
ser amanhã.
Capítulo
9 – Convite ao Inesperado
Vicente
passou a noite revendo retratos. Fotos recentes e antigas, de gente que partiu
ou apenas mudou. As imagens de Clara e Mariana estavam entre as mais recentes —
havia nelas algo semelhante, uma coragem quieta que ele soube captar no exato
instante em que clicou.
Abriu
uma garrafa de vinho e, entre goles, escreveu à mão alguns convites. Planejava
uma pequena exposição no estúdio, nada grandioso. Queria apenas mostrar rostos
em transformação. “Rostos em Véspera”, anotou como título.
Não
esperava público grande, nem olhares famosos. Era uma tentativa modesta de
reunir pessoas em estado de quase.
Na
semana seguinte, enviou os convites. Um deles para Clara, entregue pessoalmente
em um envelope bege na padaria onde ela agora trabalhava, temporariamente.
Outro para Mariana, deixado discretamente na portaria do prédio onde ela vivia.
E, movido por um impulso que nem ele soube nomear, caminhou até o bairro mais
antigo da cidade e bateu na casa de Irene.
—
Irene? Sou Vicente. Eu tirei fotos da Clara. Ela comentou que ficou aqui por
uns dias.
A
senhora, surpresa, o recebeu com gentileza.
—
Clara foi uma brisa — disse. — Entrou leve, saiu sem barulho. Mas me deixou
mais viva do que muitos que moram aqui há anos.
Vicente
lhe entregou um convite.
— Vai ter uma pequena exposição. Eu acho que a senhora devia ir. Só por
delicadeza.
Irene
olhou para o convite como quem recebe um telegrama antigo.
— Gosto de vésperas — respondeu. — Tenho vivido em uma há tempo demai
Capítulo
10 – O Encontro Silencioso
Era
uma tarde de céu limpo, raro naquele fim de outono. A pequena galeria
improvisada do Estúdio Pérola foi se preenchendo de forma tímida. Havia fotos
penduradas em barbantes, presas com pregadores coloridos. Nenhuma moldura.
Nenhuma legenda. Apenas rostos.
Mariana
chegou primeiro. Vestia um casaco cinza e os cabelos soltos. Caminhava devagar,
olhando cada retrato como quem revê suas próprias partes espalhadas.
Clara
chegou pouco depois, com um vestido azul simples e um colar de pedras pequenas.
Entrou com calma, e seu olhar encontrou o de Mariana sem esforço — como se já
se conhecessem de outra vida, ou da mesma espera.
Irene
chegou por último, com um cachecol lilás e passos lentos. Sorriu ao ver as duas
mulheres lado a lado, e ao reconhecer em cada rosto exposto a sombra que
antecede o alvorecer.
Vicente
observava de longe. Não queria interromper o que acontecia. As três estavam
próximas, mas não conversavam. Apenas caminhavam juntas pelo espaço, detendo-se
nos retratos. Em silêncio.
Um
silêncio que não exigia perguntas. Que não cobrava respostas. Apenas respeitava
o tempo de cada uma.
E,
por um instante, não era mais véspera. Era o exato agora.
Porque
em algum momento, mesmo sem saber, todas chegaram.
Epílogo
– A Mesa das Quase
Sem
que ninguém combinasse, após a exposição, Clara, Mariana e Irene saíram juntas.
Encontraram uma confeitaria discreta, e pediram chá de hibisco com bolo de
laranja. Sentaram-se numa mesa perto da janela. Trocaram nomes. Histórias.
Riram do absurdo de tudo. Choraram, um pouco. E riram de novo.
Ao
final, Clara ergueu sua xícara e disse:
—
A vida é isso, né? Um monte de gente que vive achando que está sozinha, mas
que, no fundo, só está esperando alguém que também esteja em véspera.
Irene
completou, erguendo a dela:
— E quando se encontram… viram agora.
Mariana
olhou para fora. O céu começava a escurecer, mas não importava. Pela primeira
vez em muito tempo, ela não temia a noite.
Naquele
dia, sem que nenhuma soubesse, a véspera virou encontro.
E a solidão, lugar de abrigo.
Silvia
Marchiori Buss
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