Trezentos Dias Sem Ele LIVRETO
Capítulo 1 – Roubo em Plena Vida
São trezentos dias.
Trezentos dias sem ele.
Nem todos passaram.
Alguns apenas pesaram. Outros me atravessaram como lanças surdas.
Houve dias que não me deixaram dormir e noites que não quiseram terminar.
Trezentos dias e ainda não me acostumei com a ausência dele me esperando com o
olhar — aquele mesmo, de quando a vida ainda era nossa.
Ele foi abduzido. Roubado.
Em plena vida.
Não estava pronto. Nós não estávamos.
E mesmo que o tempo nos tivesse avisado, teríamos acreditado?
Seguimos construindo juntos
desde muito cedo: casa, filhos, abraços, rotinas. Até mesmo os silêncios se
tornaram nossos.
E de repente, ele me foi tirado. Como se a vida tivesse pressa em levar quem
mais me conhecia.
Mas é por ele — e por tudo
o que fomos — que sigo.
Mesmo quando penso em parar. Mesmo quando o corpo inteiro quer desistir.
Capítulo 2 – Nosso Primeiro
Silêncio
A primeira noite sem ele
foi um eco.
O travesseiro do lado dele permaneceu intocado.
Eu quis fingir que ele ainda voltaria. Quis ouvir o barulho da chave na porta,
a tosse baixa que ele fazia antes de dizer "cheguei". Mas o mundo
estava mudo.
Descobri, então, que existe
um tipo de silêncio que não se rompe.
É o silêncio da ausência — esse que não é barulho, não é solidão: é presença
ferida.
Os filhos tentaram me
consolar. Os netos me abraçaram com força. Mas nenhum abraço alcançava o espaço
onde ele costumava estar.
Era o nosso silêncio que fazia falta — aquele que morava entre um olhar e
outro, entre o café e a noite.
Na ausência do som, eu
escutava nossas memórias.
Capítulo 3 – Quando Ele Me
Encontrava no Olhar
Ele sempre soube me ler.
Sabia quando eu precisava de colo, quando o cansaço me dobrava a espinha,
quando a saudade dos filhos adultos se enroscava em mim.
Ele sabia. E me encontrava no olhar.
Não era preciso muito.
Um toque no ombro, um silêncio partilhado, um bilhete deixado na mesa.
Ele era esse homem raro que me via mesmo quando eu me escondia.
Hoje, tento me ver com os
olhos que ele usava pra me amar.
Tento me cuidar como ele cuidava.
Mas é difícil ser inteira sem o espelho que ele era pra mim.
Capítulo 4 – Desistir
Também Seria Morrer
Houve dias em que pensei em
deitar e não levantar.
Não por falta de amor à vida, mas por exaustão de carregar tanta ausência.
Mas cada vez que essa
vontade se aproximava, uma lembrança dele me chamava de volta.
A risada dos netos. O cheiro de pão tostado nas manhãs. A gaveta onde ele
guardava nossos cartões antigos.
Tudo isso me dizia: não desista.
Desistir seria como rasgar
a história que escrevemos com as mãos calejadas da vida.
Seria trair as juras silenciosas que fizemos sem saber que eram eternas.
Então, sigo.
Por ele. Por mim. Por tudo o que nos tornamos juntos.
Capítulo 5 – Cuidar do Que
Ficou
Ele partiu, mas deixou
tanto.
Deixou gestos repetidos em nossos filhos.
Deixou traços de doçura nos netos.
Deixou a planta no quintal que ele mesmo plantou no verão em que acreditamos
que tudo era eterno.
Hoje, meu papel é cuidar.
Cuidar do que ficou, do que ainda respira com o sopro dele.
É ele quem me guia quando
ensino aos netos o nome das estrelas.
É dele que lembro quando ouço uma música antiga ou encontro um bilhete
escondido dentro de um livro.
Cuidar é a forma que
encontrei de manter aceso o amor.
E eu cuido.
Capítulo 6 – O Som da
Saudade
A saudade tem som.
Não é grito nem lamento. É aquele ruído leve que mora atrás dos olhos — um
choro que não escorre.
É a caneca de café sobre a mesa, sendo servida só para um.
É o jornal dobrado no meio da tarde, sem par para comentar a manchete.
Saudade é o nome que damos
à parte da vida que não aceitou o fim.
Há dias em que ela vem
mansa, feito brisa de lembrança.
Outros, ela vem como tempestade.
Mas mesmo em fúria, a saudade é amor.
E por isso sigo permitindo
que ela me acompanhe.
Porque onde há saudade, ainda há ele.
Capítulo 7 – Trezentos e Um
Hoje amanheceu o dia
trezentos e um.
E não foi mais leve. Mas foi diferente.
Não há cura para a ausência
dele, e nem procuro por isso.
O que encontrei foi outra forma de estar com ele: nas conversas com os netos,
nas fotos antigas que beijo de vez em quando, no modo como arrumo a casa para a
visita que nunca mais virá — mas que, no fundo, nunca foi embora.
Estou aprendendo a viver
sem que ele esteja aqui.
E ainda assim, com ele.
A saudade não passou. Mas
ganhou lugar.
A dor não cessou. Mas agora senta comigo no sofá e escuta a vida que segue.
Epílogo – Enquanto Houver
Memória
Dizem que o tempo tudo
cura.
Mentira.
O tempo só ensina a não sangrar em público.
Mas há algo que me consola:
Enquanto houver memória, ele não se foi.
Enquanto houver alguém que conte como ele sorria torto, como andava devagar,
como sabia a hora certa de calar — ele ainda vive.
E eu conto.
Conto pros netos, pros filhos, conto até pra mim mesma.
Conto nossas histórias porque são elas que me amparam nos dias difíceis.
Trezentos dias sem ele.
E ainda assim, ele é o alicerce da minha casa.
Ele é a sombra boa na varanda.
Ele é o abraço que me cobre quando fecho os olhos.
Enquanto houver memória, há
amor.
Enquanto houver amor, ele está.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário