"Se Tiver Muito Pesado Pra Você, Vá!"

Nem todo amor se mede pela presença. Às vezes, o maior gesto de amor é justamente o da ausência permitida — o adeus concedido com o coração ainda sangrando, mas as mãos abertas. Há dores que não se suportam. E há amores que, sabendo disso, escolhem não reter.

Quando alguém olha nos olhos de quem ama e diz: “Se estiver muito pesado pra você, vá”, não está desistindo — está, na verdade, assumindo o peso maior. Está dizendo: eu aguento o vazio, desde que você não precise carregar mais a dor. É um gesto silencioso de imensidão. Uma entrega sem amarras, um amor que não exige retorno, apenas liberdade.

Nem todos conseguem. A maioria insiste, suplica, segura firme a mão de quem está afundando, mesmo que isso arraste os dois. Mas há os raros — esses que entendem que amor também é deixar ir, mesmo que o mundo desmorone por dentro, mesmo que a vida nunca mais encontre seu eixo.

Dizer não é empurrar. É acolher a decisão de quem está no limite. É enxergar a exaustão nos olhos alheios e, com a alma em pedaços, oferecer a porta. Não por não amar, mas porque ama tanto que prefere o próprio luto à continuação do sofrimento de quem se ama.

Essa permissão silenciosa — quase uma oração — ecoa no tempo como um sussurro de coragem. Não há nobreza maior do que a de quem sofre calado para que o outro encontre descanso. É um tipo de amor que carrega o mundo nos ombros, mesmo depois que ele desaba. E ainda assim, ama. Mesmo sem retorno. Mesmo no vazio.

Amor, às vezes, é aceitar que o outro vá.
E continuar amando.
Mesmo assim.

 

  Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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