Retrovisor Com Carinho
Chega um tempo em que o retrovisor ganha mais espaço que o para-brisa. E não, isso não significa parar, estacionar, muito menos desistir. Significa apenas que a estrada que ficou para trás começa a dizer mais sobre quem somos do que aquela que ainda falta percorrer. Não é nostalgia — é lucidez. É olhar para trás com o cuidado de quem compreende que tudo o que vivemos virou parte do que somos. E mais: do que temos para oferecer.
O presente se faz breve,
quase fugidio. O futuro, esse grande ecrã em branco da juventude, vai se
encurtando, se estreitando, como uma trilha de terra batida no fim da tarde. Já
não se trata de correr, mas de caminhar com presença. De escutar mais do que
gritar. De perceber que a vida, nesse tempo de retrovisor largo, quer menos
espetáculo e mais essência.
É nesse momento que
aprendemos o valor das histórias — aquelas que carregamos conosco, como
cicatrizes que não doem, mas ensinam. Porque toda lembrança é uma espécie de
herança afetiva. Não é preciso dourá-las nem dramatizá-las: basta oferecê-las
com verdade. Há um saber silencioso nas coisas vividas que nenhuma teoria
substitui. E esse saber merece ser contado, compartilhado, acarinhado.
Há quem tema o passado como
quem teme um fantasma, mas ele é, na verdade, um acervo. E como todo acervo,
precisa ser cuidado: arejado, relembrado, passado adiante. Apego é paralisia,
sim. Mas afeto é movimento. E quando falamos de nossas memórias com afeto, elas
não nos prendem — nos ampliam. Nos devolvem a inteireza do vivido e criam
sentido para os que nos escutam.
É perigoso esquecer.
Perigoso silenciar. Porque esquecer é deixar de ser inteiro, e silenciar é
deixar de tocar o outro com o que há de mais verdadeiro em nós. Fortalecer o
vivido é um gesto de resistência, de humanidade. É assumir que nossa travessia,
mesmo feita de tropeços, é rica o bastante para virar alicerce, não apenas para
nós, mas para os que virão depois.
Que saibamos transformar
nossas lembranças em pontes — não em muros. Que o retrovisor não seja lamento,
mas espelho do que nos construiu. Que, mesmo que o para-brisa pareça cada vez
mais curto, ainda caibam nele os dias possíveis — e, quem sabe, alguma nova
esperança. Porque enquanto houver lembrança viva, há também sopro de vida. E
enquanto pudermos contar o que fomos, ainda estamos sendo.
A vida não é só o que se
vive. É também o que se recorda e o modo como se compartilha. E talvez, no fim
das contas, seja no retrovisor que moram as grandes riquezas da existência: os
pequenos gestos que mudaram tudo, os olhares que ficaram, as palavras que ainda
ecoam, mesmo depois do tempo.
Silvia Marchiori Buss
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