"Precisava Dar Uma Palavrinha Contigo"...

 Ela disse isso em voz baixa, como quem não quer interromper o silêncio do mundo. Disse olhando para o céu de fim de tarde, onde as nuvens iam mudando de tom como se também procurassem por alguém. Era só uma palavrinha. Nada grandioso, nada que precisasse de resposta — bastava que ele a ouvisse.

Talvez por isso repetisse tantas vezes, sozinha na varanda, enquanto o vento brincava com a cortina:
“Precisava dar uma palavrinha contigo…”

Queria contar que o café ainda ferve no mesmo horário. Que a xícara dele continua no mesmo lugar, embora ninguém mais a use. Que ela aprendeu a cuidar das plantas — até daquelas que ele dizia que só sobreviviam na teimosia(essa ele batizou de Silvinha...) E que, por mais que os dias passem, há uma ausência que não aprende a se calar.

Ela não queria muito. Só dizer que às vezes sente raiva. Outras vezes, saudade. E quase sempre, as duas juntas, como se o amor, depois da partida, tivesse virado um novelo de nós apertados no peito.

Queria perguntar também se ele ainda lembra dela. Se do lado de lá existe tempo para lembrar. Se os sonhos que ela tem, em que ele aparece com aquele sorriso torto e aquele jeito de dizer sem dizer “vai passar”, são mesmo visitas ou apenas invenções do cansaço.

Ela não precisava de grandes conselhos. Só queria uma palavrinha com ele. Uma frase simples. Um “estou aqui”. Ou, quem sabe, aquele silêncio que eles dividiam tão bem e que dizia mais do que qualquer discurso.

Mas, por enquanto, ela continua dizendo sozinha, com os olhos levemente marejados, a alma cheia e o coração entreaberto:

“Precisava tanto, meu bem, dar só uma palavrinha contigo…”

 

Silvia Marchiori Buss

 

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