O Universo e Seus Femininos: A Vida e a Morte
Há algo de profundamente feminino nos extremos da existência: nascer e morrer. A vida irrompe como um parto cósmico — explosão silenciosa que escapa às leis dos homens, dos relógios e das convenções. A morte, por sua vez, recolhe o que foi sem barulho, como uma mãe antiga que cobre a criança adormecida para que o frio da noite não a alcance.
O universo, por mais que o
chamem de masculino — senhor das galáxias, engenheiro das órbitas, deus das
colisões estelares —, curva-se diante desses dois mistérios que só as forças
femininas conhecem de dentro. A vida nasce de dentro. A morte recolhe para
dentro. Ambos têm útero.
Não há conquista, império,
sabedoria ou virilidade que vença a hora do nascimento ou do fim. Diante delas,
até os deuses tremem. A vida entra como quem não pede licença — rasga a carne,
dilata o tempo, desorganiza a ordem. A morte chega como quem já conhece o
caminho — não precisa fazer barulho, porque o corpo já se entregou antes mesmo
da última respiração.
Entre esses dois momentos,
o humano inventa o resto: guerra, trabalho, amor, mentira, fé, ciência. Mas
tudo o que somos cabe entre um primeiro grito e um último silêncio. E tudo o
que nos ultrapassa dança entre essas duas mulheres silenciosas — a Vida, que
gesta, e a Morte, que acolhe.
Não é uma disputa. Nunca
foi. É um revezamento, uma sabedoria sem vaidade. Uma entrega de bastão entre
forças que sabem esperar. E talvez seja por isso que todo homem, todo rei, todo
herói e todo sábio, diante da vida que começa ou da morte que chega, ajoelha.
Não por devoção, mas por impotência. Por reconhecimento. Por saber, mesmo sem
palavras, que há algo ali que não se domina — só se aceita.
O universo é masculino no
nome, talvez. Mas é feminino na essência. Porque só o feminino entende que
criar e findar são gestos gêmeos. Que o mesmo ventre que empurra o mundo para
fora é o que mais tarde acolherá o que restou. E nisso reside o sagrado: não no
poder, mas no ciclo.
A vida e a morte, afinal,
não pedem palco. Elas são o pano de fundo. A cena inteira. E o silêncio depois
do aplauso.
Silvia Marchiori Buss
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