O Que Fazer da Vida?
O Que Fazer Da Vida?
— Não sei o que farei da minha vida… — disse a mulher, como quem fala pra dentro e, ainda assim, se ouve alto demais.
Estava sentada na beirada da cama, o lençol amarrotado de noites maldormidas. A cortina oscilava levemente com o vento da manhã, mas ela não percebia. Chorava sem escândalo, como quem já chorou tantas vezes que o corpo sabe o caminho das lágrimas. Os olhos não procuravam nada. Só estavam ali, molhados e baixos, como se pesassem demais para seguir olhando em frente.
A casa estava silenciosa, mas não era um silêncio limpo. Era aquele silêncio espesso, povoado de restos: pratos que ninguém mais suja, vozes que não voltam do corredor, ausências que caminham de pés descalços pelos cômodos. Não havia ninguém — e, ao mesmo tempo, havia tudo. Tudo o que ela tentava esquecer e tudo o que ainda a lembrava de si.
Tinha 56 anos, dois filhos criados, um casamento que naufragara devagar, como um barco que vai enchendo d’água sem alarde. Ele foi ficando ausente. Depois ranzinza. Depois nada. Quando partiu — e partiu não pra outra mulher, mas pra um silêncio definitivo — ela não chorou. Não de imediato. Apenas assentiu, como quem assina um papel que não queria ler. A viuvez lhe caiu como uma roupa herdada: não servia, mas não tinha escolha.
Durante meses, arrastou-se pela casa como quem arruma as gavetas de uma vida que não pediu pra ficar tão vazia. Recolheu roupas, memórias, papéis, mas o que mais lhe pesava era o tempo. O tempo que sobrava. As horas longas de não ter pra onde ir nem quem esperar. Os domingos, principalmente, a matavam devagar. Eram lentos demais para a sua pressa de não sentir.
Hoje era segunda. Mas parecia domingo. Os dias já não sabiam ser diferentes.
Desceu para a cozinha. A chaleira chiava no fogão, como se reclamasse da existência. Preparou um café amargo — não por gosto, mas por desleixo. Tomou-o em silêncio, olhando pela janela o quintal empoeirado. A grama crescia sem cuidado, e as flores já não ousavam nascer. Tudo ali parecia suspenso no tempo, como ela.
— Não sei o que farei da minha vida… — repetiu, dessa vez mais baixo, como se tivesse vergonha de ouvir aquilo outra vez.
Havia, no entanto, um detalhe que ninguém via: ela ainda vivia. Respirava. Mesmo sem saber pra quê. E talvez isso fosse o pior. Acordar todos os dias, vestir o corpo, sair da cama, lavar a louça, pentear os cabelos — tudo com a alma imóvel. Era como dançar sem música. Como falar sem voz.
Pensou em sair. Em ir até a padaria, talvez. Mas se perguntou: pra quê? Quem notaria sua presença? Quem veria o corte novo no cabelo, feito por impulso numa tarde de solidão? Quem ouviria sua voz se ela decidisse dizer algo além do “bom dia” automático?
Lembrou de quando era menina e dizia que queria ser bailarina. Depois, veterinária. Depois, escritora. E então, esposa. Mãe. Dona de casa. Cuidadora. E agora? Quem era agora? Uma mulher com o rosto cansado, as mãos vazias e o tempo pela metade.
Subiu as escadas devagar. Parou na porta do quarto do filho mais velho — ainda intacto, como se ele fosse voltar das férias de dez anos atrás. Tocou os livros na estante, leu os títulos. Alguns estavam amarelados, outros com dedicatórias em sua caligrafia antiga: “Com amor da mamãe.” Teve vontade de chorar de novo, mas já não vinha lágrima.
Seguiu pelo corredor. Abriu a porta do sótão — onde nunca mais tinha entrado desde que ele partiu. A escada rangeu, cúmplice do tempo. O cheiro era de coisa guardada, de lembrança esquecida. Vasculhou caixas, pastas, cadernos. Achou cartas que nunca enviou, um bilhete que ele lhe escrevera no dia do aniversário de 40 anos: “Ainda bem que você existe, mesmo quando não sabe o que fazer da sua vida.”
Sentou-se no chão de madeira, com o papel trêmulo nas mãos. Leu de novo. E de novo. Até que alguma parte dela se reconheceu naquela frase. Talvez ainda existisse. Mesmo sem saber o que fazer.
Passaram-se horas ali. Ela não pensou em mudar de vida, em viajar, em pintar a casa de azul, em escrever um livro. Pensou apenas em respirar mais uma vez. Sem precisar fingir força. Sem precisar saber o caminho. Só existir — pela primeira vez em muito tempo — sem culpas, sem promessas, sem planos.
Ao descer, a casa estava igual. Mas ela já não era a mesma. Não melhor. Não pior. Apenas outra. Um pouco mais vazia, um pouco mais acordada. Talvez, amanhã, ela tentasse novamente descobrir o que fazer da vida. Talvez não.
Mas hoje, só por hoje, ela estava viva. E isso bastava.
— Não sei o que farei da minha vida… — disse a mulher, como quem fala pra dentro e, ainda assim, se ouve alto demais.
Estava sentada na beirada da cama, o lençol amarrotado de noites maldormidas. A cortina oscilava levemente com o vento da manhã, mas ela não percebia. Chorava sem escândalo, como quem já chorou tantas vezes que o corpo sabe o caminho das lágrimas. Os olhos não procuravam nada. Só estavam ali, molhados e baixos, como se pesassem demais para seguir olhando em frente.
A casa estava silenciosa, mas não era um silêncio limpo. Era aquele silêncio espesso, povoado de restos: pratos que ninguém mais suja, vozes que não voltam do corredor, ausências que caminham de pés descalços pelos cômodos. Não havia ninguém — e, ao mesmo tempo, havia tudo. Tudo o que ela tentava esquecer e tudo o que ainda a lembrava de si.
Tinha 56 anos, dois filhos criados, um casamento que naufragara devagar, como um barco que vai enchendo d’água sem alarde. Ele foi ficando ausente. Depois ranzinza. Depois nada. Quando partiu — e partiu não pra outra mulher, mas pra um silêncio definitivo — ela não chorou. Não de imediato. Apenas assentiu, como quem assina um papel que não queria ler. A viuvez lhe caiu como uma roupa herdada: não servia, mas não tinha escolha.
Durante meses, arrastou-se pela casa como quem arruma as gavetas de uma vida que não pediu pra ficar tão vazia. Recolheu roupas, memórias, papéis, mas o que mais lhe pesava era o tempo. O tempo que sobrava. As horas longas de não ter pra onde ir nem quem esperar. Os domingos, principalmente, a matavam devagar. Eram lentos demais para a sua pressa de não sentir.
Hoje era segunda. Mas parecia domingo. Os dias já não sabiam ser diferentes.
Desceu para a cozinha. A chaleira chiava no fogão, como se reclamasse da existência. Preparou um café amargo — não por gosto, mas por desleixo. Tomou-o em silêncio, olhando pela janela o quintal empoeirado. A grama crescia sem cuidado, e as flores já não ousavam nascer. Tudo ali parecia suspenso no tempo, como ela.
— Não sei o que farei da minha vida… — repetiu, dessa vez mais baixo, como se tivesse vergonha de ouvir aquilo outra vez.
Havia, no entanto, um detalhe que ninguém via: ela ainda vivia. Respirava. Mesmo sem saber pra quê. E talvez isso fosse o pior. Acordar todos os dias, vestir o corpo, sair da cama, lavar a louça, pentear os cabelos — tudo com a alma imóvel. Era como dançar sem música. Como falar sem voz.
Pensou em sair. Em ir até a padaria, talvez. Mas se perguntou: pra quê? Quem notaria sua presença? Quem veria o corte novo no cabelo, feito por impulso numa tarde de solidão? Quem ouviria sua voz se ela decidisse dizer algo além do “bom dia” automático?
Lembrou de quando era menina e dizia que queria ser bailarina. Depois, veterinária. Depois, escritora. E então, esposa. Mãe. Dona de casa. Cuidadora. E agora? Quem era agora? Uma mulher com o rosto cansado, as mãos vazias e o tempo pela metade.
Subiu as escadas devagar. Parou na porta do quarto do filho mais velho — ainda intacto, como se ele fosse voltar das férias de dez anos atrás. Tocou os livros na estante, leu os títulos. Alguns estavam amarelados, outros com dedicatórias em sua caligrafia antiga: “Com amor da mamãe.” Teve vontade de chorar de novo, mas já não vinha lágrima.
Seguiu pelo corredor. Abriu a porta do sótão — onde nunca mais tinha entrado desde que ele partiu. A escada rangeu, cúmplice do tempo. O cheiro era de coisa guardada, de lembrança esquecida. Vasculhou caixas, pastas, cadernos. Achou cartas que nunca enviou, um bilhete que ele lhe escrevera no dia do aniversário de 40 anos: “Ainda bem que você existe, mesmo quando não sabe o que fazer da sua vida.”
Sentou-se no chão de madeira, com o papel trêmulo nas mãos. Leu de novo. E de novo. Até que alguma parte dela se reconheceu naquela frase. Talvez ainda existisse. Mesmo sem saber o que fazer.
Passaram-se horas ali. Ela não pensou em mudar de vida, em viajar, em pintar a casa de azul, em escrever um livro. Pensou apenas em respirar mais uma vez. Sem precisar fingir força. Sem precisar saber o caminho. Só existir — pela primeira vez em muito tempo — sem culpas, sem promessas, sem planos.
Ao descer, a casa estava igual. Mas ela já não era a mesma. Não melhor. Não pior. Apenas outra. Um pouco mais vazia, um pouco mais acordada. Talvez, amanhã, ela tentasse novamente descobrir o que fazer da vida. Talvez não.
Mas hoje, só por hoje, ela estava viva. E isso bastava.

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