Num Intervalo de Tempo

Durante muito tempo — e como demorou a perceber isso — ela viveu em função do que o tempo decidia. O tempo das tarefas, o tempo das expectativas alheias, o tempo do relógio que apitava para lembrar que já era hora de ser outra coisa. O tempo que a urgia. O tempo que a esperava. O tempo que, sem piedade, a empurrava de uma obrigação para outra como se ela fosse apenas um corpo em trânsito.

Ela acordava cedo porque disseram que era virtude. Corria para o trabalho como se o mundo fosse acabar ao meio-dia. Voltava correndo para casa como se o lar precisasse ser resgatado de um incêndio invisível. Dormia tarde demais, com os olhos no teto, e o cansaço pulsando como um segundo coração. E nesse ciclo — vicioso, cansativo, domesticado — ela se perdeu. Não por distração, mas por obediência.

Foi numa tarde qualquer, de um dia qualquer, que o intervalo aconteceu. Um intervalo de tempo entre um afazer e outro, entre o dever e o cansaço. Um espaço de tempo em que ninguém a pediu nada, ninguém a cobrou nada, ninguém a olhou. Ela sentou no chão da sala, ainda de sapatos, e ali ficou. O silêncio não era grande, nem o espaço. Mas havia um sopro de liberdade naquela pausa.

Ela ouviu o tique-taque do relógio da cozinha — aquele mesmo que por anos determinava suas rotinas — e pela primeira vez não correu para atendê-lo. O som, antes comando, agora era só um som. Um som sem poder. E foi então que ela disse, quase sem voz, quase sem querer:
— O tempo é meu.

E assim foi.

Ela não pediu licença. Não agendou. Não esperou que fosse conveniente. Apenas começou a decidir. Não tudo de uma vez, mas como quem vai desatando um laço apertado com calma, desfazendo nó por nó. Passou a comer devagar, a andar sem fone de ouvido, a não responder mensagens imediatamente. O mundo achou estranho — como ousava ela desobedecer o tempo do mundo?

Mas ela já não se importava com o estranhamento. Descobriu que havia outro tempo: o dela. Um tempo que se estendia quando lia um livro com gosto, que se espreguiçava quando olhava o céu sem culpa. Um tempo que não precisava ser produtivo para ser bonito.

Ela continuava vivendo no mesmo mundo, é verdade. Ainda pagava contas, cumpria prazos, comparecia a reuniões. Mas não se confundia mais com o cronômetro. Ela agora sabia que o tempo não era dono. Era parceiro, e só quando ela quisesse.

E, no fim, foi o mundo que teve de se adaptar. Porque ela, enfim, tinha tomado posse do que sempre fora seu: um intervalo de tempo onde cabia a vida inteira.

 

Silvia Marchiori Buss

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