Num Domingo Qualquer
Num domingo qualquer, a vida escorre devagar pelos dedos.
Sem avisar, ela se espalha em pequenos gestos: o cheiro do café que invade a
casa, a toalha antiga estendida na mesa, o sol filtrado pelas frestas da
persiana. Não é um domingo especial. Não tem data marcada no calendário, nem
promessa de grandes reviravoltas. Mas, por algum motivo, parece conter tudo.
Talvez porque aos domingos
a gente respire diferente.
O mundo silencia um pouco, os relógios cochilam, e até os pensamentos andam
descalços. Não há pressa para se entender, nem exigência de ser útil. Há apenas
a possibilidade de ser.
A vida se revela nesses
instantes miúdos.
Num chinelo velho de quem voltou do mercado, na risada de criança que brinca no
pátio do vizinho, no pão com manteiga que derrete só de encostar na frigideira.
É ali que mora o sentido: não nos grandes feitos, mas na constância das
pequenas ternuras.
Num domingo qualquer,
alguém se lembra de alguém que partiu.
Outro visita uma saudade antiga que resolveu bater na porta. E mesmo entre
lágrimas ou silêncios, há vida — essa teimosa que insiste em florescer onde
menos se espera.
E então, sem querer, a
gente percebe:
a vida não precisa ser extraordinária para ser profunda.
Ela só precisa ser sentida.
E, se possível, partilhada.
Porque mesmo os domingos
mais comuns — aqueles que parecem se repetir eternamente — carregam em si o
milagre de estarmos aqui.
Inteiros ou não.
Mas vivos.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário