Não Sentir Pena de Si

 Há uma dignidade silenciosa em quem recusa o papel de vítima. Não por orgulho. Não por negação. Mas por lucidez.

Viver é se lançar em caminhos que nem sempre têm chegada. Escolhemos porque queremos. Ou porque não há alternativa. Ou porque a vida — essa criatura cheia de curvas e ironias — nos empurra sem que a gente perceba. E tudo bem. Nem sempre há um sentido, nem sempre há um final feliz, e nem por isso precisamos transformar a travessia num lamento.

Algumas escolhas parecem certas. Têm cheiro de futuro bom, gosto de promessa, textura de sonho. Mas depois, escurecem. Empacam. Nos cansam. A tentação é pensar: “por que comigo?”. A tentação é querer colo, plateia, redenção. Mas talvez a força more exatamente na recusa desse roteiro.

Não se trata de endurecer. Trata-se de se responsabilizar — por si, pelas encruzilhadas, pelas tentativas. Trata-se de não delegar ao outro o roteiro da própria dor.

Há quem confunda esse gesto com frieza. Há quem ache que se recusar a ser vítima é negar o sofrimento. Não é. É, ao contrário, reconhecê-lo sem pedir que ele vire bandeira. É não se ajoelhar diante da má sorte como quem espera um milagre. É seguir, às vezes capengando, às vezes em silêncio, mas sempre com os próprios pés.

Porque não há manual. Não há garantia. Mas há sempre a possibilidade de seguir. Com dignidade, mesmo que sem mapa. Com alguma paz, mesmo que sem aplausos.

E com a coragem — essa sim rara — de não ser coadjuvante da própria vida.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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