Não Queria Dizer Adeus

Havia um porta-retrato virado para a parede. Ninguém sabia ao certo desde quando. Só se sabia que foi depois da última madrugada em que ela chorou na cozinha, com as mãos trêmulas e a chaleira esquecida no fogo.

Helena nunca soube se estava pronta para a despedida. E talvez esse tenha sido seu erro: esperar por uma prontidão que jamais viria. Dizia a si mesma que tudo seria mais fácil quando acontecesse — como se o adeus viesse com manual de instruções, como se a ausência tivesse o bom senso de ser educada.

Mas não foi.

Antônio partiu em silêncio, do jeito que vivia: sem barulho, sem cerimônia. Deitou-se ao lado dela numa noite de abril e, ao amanhecer, já não respirava. Havia no quarto um cheiro de alfazema, um livro marcado na página 32, e um par de meias dele esquecido no chão. O resto foi ausência.

Desde então, Helena passou a conversar com as coisas da casa. Chamava a cadeira de balanço pelo nome dele. Dizia “com licença” ao abrir o armário onde guardava as camisas que se recusava a doar. E sussurrava palavras inteiras à xícara preferida dele — como se o café pudesse trazê-lo de volta, mesmo por alguns minutos.

A filha, Clara, dizia que ela precisava “seguir em frente”. Mas Helena nunca entendeu bem o que isso queria dizer. O amor não é uma estrada onde se pode simplesmente apertar o acelerador. É mais como uma casa antiga: a gente mora nela mesmo com goteira, mesmo com parede trincada. E quando alguém vai embora, os móveis continuam falando.

Foi numa tarde cinza, dessas em que o tempo parece mastigar o relógio, que Helena escreveu a carta. Não para enviar. Só para dizer o que não teve tempo. Dobrou com cuidado e guardou no bolso do casaco dele — aquele marrom, que ele usava nos dias de vento. Depois, sentou-se na beira da cama e ficou olhando para a porta, como se ele ainda pudesse entrar e dizer: “Esqueci a chave, amor”.

Não entrou. Claro que não.

No mês seguinte, Clara veio visitá-la com um buquê de flores e um convite para passar uns dias em sua casa. Helena sorriu, mas recusou. Disse apenas:
— Ainda não terminei de dizer adeus.

Porque dizer adeus, para ela, não era um ato. Era um processo. E às vezes demorava uma vida inteira.

 

 

 Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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