Entre o Microscópio e o Mistério
Já não sei se um dia vou te reencontrar.
Minha fé anda trêmula, como quem pisa em chão rachado.
Há dias em que acredito que o amor não morre, apenas muda de forma e lugar —
vira vento, cheiro, lembrança, toque invisível.
Mas em outros, me agarro à frieza das evidências, ao que pode ser medido,
provado, dissecado.
E aí você parece mesmo ter ido. E só. Fico entre dois mundos.
A ciência me oferece respostas — quase todas sem alma.
Fala de células, de energia, de matéria que se transforma,
mas não responde por que o travesseiro ainda guarda tua ausência como quem
guarda um segredo.
Já a fé… ah, a fé…
Essa me pede olhos fechados, mesmo quando tudo dói em plena luz do dia.
Ela sussurra que a morte não é fim, que há reencontros em outros planos,
mas às vezes, confesso, me soa como consolo inventado pra suportar o
insuportável.
Eu queria que um deles
vencesse, só pra descansar.
Ou acreditar de vez que te verei de novo, e então sonhar com isso sem medo.
Ou aceitar que não verei, e aprender a viver mesmo assim.
Mas sigo aqui,
entre o microscópio que examina o mundo
e o vazio que insiste em me mostrar que o mundo não se resume ao que se pode
ver.
Talvez, um dia, a fé e a
ciência se abracem.
Talvez, um dia, eu te reencontre —
no corpo de outra forma,
no tempo de outro tempo,
ou apenas no silêncio que só se explica com amor.
Silvia Marchiori Buss
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