Bandeiras Esfarrapadas

 São tantos te amo, boa viagem, feliz dia — espalhados como confetes em um Carnaval que não acaba nunca. Nas redes sociais, onde todos se seguem, se curtem, se declaram, os vínculos parecem sempre brilhantes, os sorrisos são amplos, os relacionamentos são amigáveis e amáveis. Dias são sempre “abençoados”. Amores são eternos. Famílias, unidas. Pais e filhos são melhores amigos. Irmãos se marcam em postagens com corações e lembranças de infância editadas com filtros dourados.

Mas quando nos vemos, sem câmera, sem tela, sem legenda… há um certo estranhamento.
O abraço parece ensaiado.
A conversa escorrega na superfície.
O olhar evita o fundo.
Porque ali, no encontro real, as bandeiras tremulam rasgadas.
Rasgadas pela ausência, pelo silêncio do cotidiano, pelas brigas nunca ditas, pelos afetos esquecidos entre uma notificação e outra.

Há quem se ame profundamente sem dizer.
E há quem diga eu te amo todo dia, só pra manter a estética do perfil.

Não se trata de negar o afeto digital, mas de perguntar: o que de nós ainda é inteiro fora da vitrine?

Quantas amizades sobreviveriam a um café sem Wi-Fi?
Quantos amores se sustentariam num silêncio a dois, sem stories para contar?
Quantas famílias se reconheceriam, de verdade, longe das lembranças programadas no Facebook?

As bandeiras, essas que tremulam no alto dos nossos perfis, estão ali — mas quantas resistiriam à primeira tempestade real?

Talvez seja hora de costurar o que foi rasgado.
Com presença.
Com gesto.
Com o peso bom de um afeto que não precisa ser postado pra existir.

Amores verdadeiros não precisam de curtidas — só de um olhar que permanece.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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