Aos Amores Que Já Se Foram

Alguns amores não acabam. Apenas se recolhem.

Feito ondas que voltam para o  fundo do mar sem aviso — depois de tocar a areia com tanta fúria, com tanta entrega.
Não há manual que nos ensine a lidar com a ausência do que foi inteiro.
Há apenas o silêncio. E ele costuma chegar antes da compreensão.

Tivemos amores que pareceram eternos.
Amores que nos fizeram reinventar os dias, mudar o rumo das horas, refazer planos com as mãos trêmulas de quem acredita.
Eram amores de alma, de corpo, de pele que reconhece pele.
Mas a vida — esse rio inquieto — às vezes muda de curso sem perguntar se sabemos nadar.

Alguns se foram pela morte. Outros, pela vida que virou outra.
Sem traições cinematográficas, sem mágoas de novela.
Foram atravessados pelo tempo, pelo cansaço, por distâncias que não cabem no mapa, mas se instalam no coração.
E também por perdas que não deixam rastros no chão, apenas no peito.

Eles existiram. Amaram e foram amados.
E isso deveria bastar.
Mas nem sempre basta. Porque a memória tem uma maneira caprichosa de repetir cenas que já deveriam ter se despedido.
Um cheiro na rua, uma música antiga, uma foto esquecida no fundo de uma caixa — e pronto.
O amor volta. Mesmo sem voltar.

Não queremos que retornem. Queremos, talvez, que não tivessem partido.
Ou que, ao menos, tivessem deixado mais do que lembranças: uma carta, uma frase final, qualquer coisa que embalasse melhor a dor.
Mas eles foram. Como vão as estações, como se vão as certezas.
E o que fica é uma saudade que não grita. Só respira. Baixo.

Aos amores que já se foram — por morte, por tempo, por descompasso —
não há rancor, nem poesia pronta.
Há apenas esse ponto de interrogação onde o ponto final teima em não se firmar.
E talvez seja assim mesmo.
Alguns amores não foram feitos pra durar.
Foram feitos pra marcar.

E marcaram.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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