Amores do Apocalipse

O mundo estava caindo. Não em labaredas, nem em bombas — isso já tinha passado. Agora o fim era mais sutil: bancos fechando, prateleiras vazias, sirenes que já ninguém ouvia. E, acima de tudo, aquele silêncio: o silêncio de quem desistiu de esperar salvação.

Ela chamava-se Clara. Ele, Vicente.

Não se viam há dois anos. Mas toda vez que a vida resolvia se romper, eles voltavam a se procurar. Era uma espécie de pacto não escrito, como se o colapso lá fora puxasse o fio invisível que os ligava.

Clara atravessou a cidade a pé. Três horas de caminhada, desviando de prédios queimados e ruas esvaziadas. Carregava uma mochila com água, um cobertor e o retrato amassado dos dois, tirado num tempo em que ainda se acreditava em futuro.

Ao chegar ao velho edifício onde Vicente morava, bateu na porta com força. A madeira rangeu. Nada. Bateu de novo.

Até que ouviu passos arrastados.

— Sabia que viria — disse ele, sem abrir logo.

— Como?

— Porque o mundo está acabando. E a gente só se encontra quando ele resolve morrer um pouco mais.

A porta se abriu. Clara estava com o rosto molhado de suor e poeira, os olhos fundos de quem carregava mais que o peso da mochila.

— Preciso de abrigo, Vicente.

— Não sei se sou abrigo, Clara. Eu também tô desabando.

— Então a gente desaba junto — ela respondeu.

Ele deu um passo para o lado, deixando que ela entrasse. A sala estava escura, cheirando a umidade e lembrança. Sentaram-se no chão, um de frente para o outro.

— Quando foi que a gente se tornou isso? — ele perguntou.

— Isso o quê?

— Dois sobreviventes que só se acham nas ruínas.

Clara respirou fundo. O coração dela batia como se ainda corresse.

— A gente sempre foi meio apocalipse, Vicente. Nunca soubemos viver no sossego. Nos dias normais, a gente se perdia.

— E por que voltou?

— Porque lá fora tudo está ruindo, e eu só lembro de você quando tudo ruía. É como se meu corpo me dissesse: “Vai até ele, Clara. É o único lugar onde o caos faz sentido.”

Ele olhou para ela com a expressão partida.

— Você ainda me ama?

Ela demorou para responder. Estava cansada de perguntas que exigiam promessas.

— Eu ainda te procuro. E nesse mundo, Vicente, isso é o mais perto do amor que a gente consegue chegar.

Ele assentiu em silêncio. Depois estendeu a mão, suja e trêmula. Clara segurou como quem segura uma beira de mundo.

Lá fora, um trovão ecoou distante. E por dentro, um abrigo se formava, frágil! Mas verdadeiro.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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