A Pior Parte do Amor

O quarto estava escurecido pelas persianas meio fechadas. Era fim de tarde, mas ali dentro o tempo já não obedecia às regras do mundo. A filha sentada na beira da cama, os olhos fixos no chão. O pai, numa cadeira baixa, de mãos entrelaçadas, como quem segura alguma coisa muito delicada — talvez a coragem.

Ela suspirou. Ele ouviu o silêncio denso entre um pensamento e outro. Havia dias em que ela chegava apenas com o corpo; o olhar ficava longe, como se o mundo já não coubesse nela.

— Pai… — a voz dela era só um fiapo — eu não sei mais se consigo. É tudo tão... pesado. Dentro de mim, parece que algo afunda e não volta. Tô cansada, pai. Cansada de me fingir viva.

Ele não respondeu logo. Queria. O instinto era segurar a mão dela e dizer “fica”, como sempre dissera. Mas agora havia algo diferente. Uma tristeza tão funda no olhar dela que o amor — aquele amor que é feito mais de escuta do que de palavra — precisou aprender a se calar.

Então ele respirou fundo. Se inclinou um pouco pra frente, como quem se aproxima não pra convencer, mas pra acolher. O tempo parecia ter parado entre o gesto e a frase que veio, como se o mundo prendesse a respiração junto com ele.

— Se tiver muito pesado pra você… vá.

Ela levantou os olhos, surpresa. Talvez esperasse uma súplica. Talvez, no fundo, quisesse que ele insistisse para que ela ficasse, como se a sua permanência dependesse de alguém não permitir que ela fosse.

Mas ele só continuou ali, os olhos marejados, firmes. O pranto preso dentro dele não pedia saída — pedia sentido.

— Vá, minha filha. Não como quem foge, mas como quem escolhe descansar. E se não conseguir ir… fica. Mas sem culpa. Seja como for, eu vou continuar aqui. Inteiro em amor. Mesmo quebrado.

Ela chorou. Não um choro de desespero — um choro de quem sente que foi vista, enfim, por inteiro. De quem recebeu, sem saber, a bênção mais difícil: a permissão para se recolher.

— Eu não queria te machucar — disse, entre lágrimas.

— E eu não quero que você se afogue tentando me poupar — ele respondeu.

A voz dele era um abrigo. Um último farol antes do nevoeiro.

Ficaram ali. Nenhum dos dois sabia o que viria depois. Não havia garantias. Mas havia, entre eles, uma coisa maior que a presença: havia a aceitação. E ela era tão rara, tão inteira, que bastava.

Ele não sabia se ela partiria no dia seguinte. Ou se ficaria só mais um pouco. Talvez mais um inverno, talvez até que a alma encontrasse um espaço para respirar.

Mas sabia que, com aquele gesto, tinha dado o amor mais corajoso que um pai pode dar: o amor que solta, mesmo querendo segurar. Que abre a porta, mas continua ali, de vigília.

Porque às vezes, amar é isso.
É dizer: “Se for muito pesado, vá”.
E ficar, mesmo assim.
Com o coração aberto.
Esperando o tempo do outro.
Honrando o amor no tempo que for possível.

Naquela tarde, que parecia não terminar nunca, ele entendeu que há momentos em que o amor verdadeiro não pede para ficar — apenas garante que haverá um lugar onde voltar.

E naquele silêncio entre pai e filha, algo se transformou.
A dor não foi embora. Mas encontrou colo.
E, por um instante, só por um instante… isso foi o bastante.

No dia seguinte, o quarto amanheceu com a mesma penumbra leve, mas havia algo de diferente no ar. A filha ainda estava ali. Sentada na mesma beira da cama, como se não tivesse se movido. Mas havia dormido um pouco. Pela primeira vez em dias, dormido sem sobressalto. Talvez por ter escutado que não precisava mais fingir. Ou por saber que, se decidisse partir, não o faria sob o peso da culpa, mas sob o abrigo da compreensão.

O pai preparou café. Sem pressa. Esperou os sons da casa se espalharem naturalmente, como sempre fizera quando ela era criança e precisava acordar devagar. Colocou a xícara preferida dela sobre a mesa, mesmo sem saber se ela desceria.

Ela desceu.

Com passos lentos, rosto ainda cansado, mas com um olhar que dizia “ainda estou tentando”. Não trocaram muitas palavras. Apenas dividiram o silêncio entre um gole e outro. Às vezes, o que salva é isso: um café sem exigência, uma presença que não pesa.

Os dias que vieram foram assim. Uns com mais sombra, outros com pequenas luzes acesas. Ela começou a sair por instantes — pequenas caminhadas pelo jardim, visitas breves ao quintal onde a mãe plantava ervas. Ele não perguntava onde ela ia nem por quanto tempo ficaria. Apenas esperava. Às vezes com um bilhete na porta: "volto quando o peito permitir." Às vezes, nem isso. Mas ela sempre voltava. Ainda.

Até que, numa manhã de céu aberto, a porta do quarto ficou entreaberta. E ele soube: era o dia dela partir.

Não para sempre — não daquele jeito definitivo que o medo costuma imaginar. Mas partir um pouco. Recolher-se. Buscar um outro lugar onde o silêncio não doesse tanto. Deixar que o tempo fizesse o que as palavras não conseguiam mais fazer.

Na mesa, ela deixou uma folha rasgada de caderno. Nele, escreveu só três linhas:

“Pai, fui descansar um pouco de mim.
Obrigada por não me prender.
Você me salvou sem me impedir.”

Ele leu. Sorriu com os olhos marejados. E deixou a xícara dela no mesmo lugar.

Continuaria ali.
Com o coração aberto.
Esperando o tempo do outro.
Honrando o amor no tempo que for possível.

Porque o amor verdadeiro não teme o intervalo.
Ele atravessa as pausas.
E às vezes, é no tempo da ausência que ele se faz mais inteiro.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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