A Mulher Que Sabia Negociar

Dizem que Dona Mirela nasceu com o dom da lábia. Quando pequena, negociava horas a mais para brincar na rua em troca de ajuda com a louça. Crescida, trocou os deveres escolares por fatias de bolo de fubá distribuídas estrategicamente aos colegas mais espertos. Quando se casou, não escolheu um homem, escolheu um sócio — e o convenceu de que um bom casamento precisava de duas geladeiras: uma para os legumes, outra só para os vinhos.

Mirela era dessas que não aceitavam um “não” sem antes espremer dele todas as possibilidades de um “talvez”. Negociava o preço do pão, o prazo do cartão, o silêncio do vizinho barulhento. Uma vez, numa fila de supermercado, fez uma criança desistir de um pirulito em troca de duas balas de menta que ela tirou da bolsa — e ainda saiu como heroína aos olhos da mãe exausta.

A fama dela cresceu. Se tinha alguém capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa, era ela. Nem o padre escapou: numa missa, ela o fez inverter a ordem dos cânticos só porque achava que o Aleluia ficava mais bonito no fim. E ele ainda agradeceu a sugestão.

Mas eis que chegou o dia da festa.

Setenta anos. Setenta!

Sete décadas de vida resumidas numa noite só. Contratou banda, buffet, barman, fotógrafo e até um mágico. Cada detalhe havia sido negociado à exaustão: os arranjos da mesa saíram por metade do preço e o garçom extra foi convencido a trabalhar só pelo prato feito e pelas fotos com famosos (Dona Mirela garantiu que sua prima era sobrinha do Tony Ramos — quase igual).

Estava linda. Vestido bordado, batom vermelho e um brinco de pérola herdado da avó. O salão enfeitado, os convidados chegando, a música suave preenchendo os cantos. Mas foi no meio da dança com o neto mais novo que ela sentiu.

Um calafrio. Depois um aperto no peito. Depois, o silêncio estranho que não vinha da música — vinha de dentro.

Sentou-se com elegância. Pediu um copo d’água com limão. E então ela apareceu.

A Morte.

Nada de foice ou capa preta. Veio como uma mulher discreta, de vestido cinza e olhar calmo. Aproximou-se devagar e falou sem rodeios:

— Vim te buscar, Mirela.

Ela sorriu. Não de nervoso — de incredulidade.

— Agora? Você tá brincando comigo, né? Logo hoje? Justo hoje, criatura?

A Morte, impassível, balançou a cabeça.

— As coisas não são marcadas por conveniência. São marcadas por destino.

Mirela pigarreou. Olhou em volta: os convidados dançavam, os salgadinhos circulavam, e a vida — a dela — fervia em cada canto do salão.

— Escuta aqui, minha filha — começou já arregaçando a manga do vestido —, a senhora deve ser muito ocupada, né? Muita gente pra levar, agenda lotada... Mas veja bem: eu gastei uma fortuna nessa festa. Tenho 234 coxinhas no forno, cinquenta brigadeiros empilhados em forma de pirâmide, uma playlist que começa com Rita Lee e termina com Alcione, e dois ex-maridos confirmados só pra causar. Você tem noção?

A Morte pareceu confusa. Pela primeira vez em milênios, alguém argumentava com tamanha firmeza.

— Mirela...

— Nada de “Mirela”! Olha só: vamos negociar. Você me dá mais 48 horas. Eu curto a festa, durmo, acordo, como os restos, tomo meu licorzinho no domingo e aí, aí sim, você volta. Mas quero garantias. Ninguém pode tocar nos meus docinhos enquanto eu não autorizar.

Silêncio.

A Morte pensou. Respirou — se é que podia. E então, suspirou.

— E se eu te der 24 horas?

— Trinta e seis. Nem mais, nem menos. Em troca, quando você voltar, eu vou com dignidade, sem fazer drama, sem apelar. Nem vou tentar te vender os enfeites da festa — apesar de serem lindos.

A Morte franziu o cenho. Depois relaxou. Estendeu a mão.

— Fechado.

As duas selaram o trato com um leve aperto. A Morte sumiu, e Mirela, triunfante, voltou à pista de dança como se nada tivesse acontecido.

No dia seguinte, dançou mais, bebeu champanhe, fez um discurso que arrancou lágrimas e gargalhadas. E, à noite, depois de tudo, sentou-se sozinha, olhou o salão vazio e murmurou:

— Pode vir, moça. Estou pronta. Mas me diga uma coisa... A senhora já pensou em contratar uma assessora? Porque se depender de mim, posso te ajudar a organizar essas visitas com menos impacto. Cobro barato. Parcelado, se quiser.

A Morte riu. Dizem que foi a primeira vez.

E assim, Dona Mirela foi. De vestido bordado, alma leve e contrato assinado. Negociou até o fim. E quem ousar duvidar... que tente vencer a morte no cansaço.

Boa sorte.




Silvia Marchiori Buss

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