A Casa Onde o Silêncio Morava

Desde que Alfredo partira, Cecília se tornara um cômodo aberto. Por ali passavam os familiares com suas palavras mornas, os amigos com seus abraços curtos, os vizinhos com bolos, frases feitas e olhos curiosos. Ela ouvia, ela sorria, ela agradecia. Mas por dentro, a alma se encolhia, à procura de um canto onde pudesse sentar sozinha e escutar seu próprio lamento.

Alfredo morrera num entardecer sem poesia, no meio de uma terça-feira comum, com a louça ainda por lavar e a toalha úmida no varal. Não houve aviso, nem discurso, nem a chance de um último gesto. Um sopro e ele se fora. E ficou um espaço entre as horas que ninguém conseguia preencher.

Nos primeiros dias, Cecília mal dormiu. Noite adentro, escutava as vozes ao telefone, as mensagens chegando, as orações que vinham de todos os cantos, como se a fé alheia pudesse remendar a carne que rasgara por dentro. Às vezes, fechava os olhos e fingia que dormia só para que as visitas fossem embora. Noutras, sorria com um cansaço que doía até nos ossos.

Mas o que ninguém via — nem mesmo ela — era que sua alma precisava de um tempo fora do mundo. Um tempo que não cabia nos relógios, nem se encaixava nos rituais sociais do luto. Era como se estivesse acorrentada dentro de si, querendo andar descalça sobre as lembranças, abrir as janelas do peito e deixar o vento do silêncio entrar.

Foi então que lembrou da casa do lago. Um lugar esquecido pelos outros, mas nunca por ela. Era ali que, anos atrás, ela e Alfredo passavam semanas no verão, entre livros, risos e pescarias desastradas. A casa estava velha, com telhas soltas e móveis cobertos de pó, mas ainda guardava o cheiro do tempo em que a vida era inteira.

Sem alarde, Cecília arrumou uma pequena mala. Levou dois vestidos, um casaco grosso, um punhado de cartas antigas e uma fotografia dele em preto e branco — a preferida. Não avisou ninguém. Deixou um bilhete na porta da geladeira: “Volto quando o silêncio me devolver.”

A viagem até lá foi longa, cheia de curvas e mato crescido nas beiradas da estrada. Quando chegou, o sol já caía por trás das montanhas e a casa parecia cochilar. Havia um ar de abandono, mas também de promessa. Destrancou a porta com mãos trêmulas. O ar cheirava a madeira úmida e saudade.

Na primeira noite, dormiu pouco. O ranger do assoalho, o bater das folhas contra as janelas, o tempo voltando devagar. Nos dias seguintes, limpou cada cômodo como quem faz um ritual. Acendeu velas, abriu as cortinas, lavou a louça que ainda guardava marcas do passado. Não falava, não ouvia vozes. Apenas respirava.

E começou, pouco a pouco, a escutar. Escutou os silêncios que a cidade abafava, o som da própria respiração, o ritmo do coração quando se lembrava dele. Escutou a risada de Alfredo presa entre as paredes, a forma como ele a chamava de “meu porto”, os sussurros trocados nas madrugadas sem pressa.

No jardim, as hortênsias haviam crescido sem controle. Cecília as podou com mãos calmas. Plantou algumas sementes, como se enterrasse promessas que não precisavam mais florescer. E à noite, sentava-se na varanda com uma manta sobre os ombros, deixando a lua pousar em seu colo como se fosse uma antiga amiga.

Houve dias em que chorou por horas sem saber o motivo exato. Outros em que apenas observava o lago, imóvel, como se esperasse que ele dissesse alguma coisa. Mas o lago nunca dizia. Apenas devolvia o céu em silêncio. E foi nesse reflexo mudo que ela entendeu: o luto não queria palavras — queria presença.

Na casa onde o silêncio morava, Cecília não procurava sentido, nem consolo. Queria apenas estar com o que havia ficado: o eco de Alfredo em sua pele, a sombra dele ao lado da cama, o cheiro da ausência impregnado nas cortinas. Não havia redenção, nem alívio. Mas havia um lugar. E isso bastava.

Depois de muitas semanas, ela voltou. Não curada, não forte, não pronta. Mas inteira naquilo que agora carregava. Voltou com a alma silenciosa e com o olhar diferente — o tipo de olhar que já viu a queda e decidiu ficar ali, plantada, mesmo sem saber o que virá depois.

Dizem que voltou mais serena. Que sorri menos, mas olha mais fundo. Que fala devagar, como quem sabe que cada palavra pode ferir ou salvar. E quando perguntam onde esteve, ela responde apenas:
— Estava com Alfredo.
E, mais ainda, estava comigo.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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