Viver Hoje Como se Fosse o Último

 “Às vezes, tudo o que a vida pede é que a gente repare.”

E se soubéssemos o dia exato em que vamos partir?
Essa pergunta, à primeira vista, pode soar pesada, incômoda – mas talvez seja só um jeito mais direto de nos perguntar: estamos realmente vivendo ou apenas empurrando os dias com a barriga?

Não se trata de pressa, de correr para cumprir uma lista de desejos extravagantes, mas de um tipo de atenção que se perde no automático. Porque é assim: a vida se ocupa de compromissos, prazos, contas e distrações. E, no meio disso tudo, esquecemos que o tempo é a única coisa que não se repõe.

Se hoje fosse o último – e ninguém aqui tem garantia de que não seja –, talvez descemos bom dia com mais verdade, deixássemos o café demorar um pouco mais na boca, escutássemos com paciência aquela pessoa que sempre apressamos. Talvez fizéssemos a mesma rotina, mas com outro olhar. Talvez a gente simplesmente agradecesse por varrer a casa, cozinhar para alguém, sentir o cheiro da roupa limpa, ouvir a risada de um neto ou o silêncio do fim da tarde.

Parece pouco? Pois é justamente aí que mora o muito.

Viver como se fosse o último não é viver em luto, mas em presença. É entender que o cotidiano – por mais cansativo que seja – é onde a vida verdadeiramente acontece. Não há nada de extraordinário em escovar os dentes ou atravessar a rua, mas há beleza em fazer isso com a consciência de que estamos, ainda, aqui.

Pode soar como um conselho de autoajuda? Pode. Mas não é.
É só uma constatação: a finitude não precisa ser um susto – pode ser um lembrete.
Um sussurro que diz: não adie a delicadeza.
Não economize afeto.
Não espere a despedida para perceber o valor de um instante.
Crie o seu momento de lembranças.

Silvia Marchiori Buss

 

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