Várias Vidas Dentro de Uma
É curioso pensar que, mesmo em uma vida breve, possamos carregar tantas versões de nós mesmos. Como se dentro de uma só história morassem outras tantas — cada uma com suas roupas, seus medos, suas descobertas, seus silêncios. A infância que tivemos já não reconhece o olhar que hoje lançamos sobre o mundo. A juventude que tivemos talvez estranhe a serenidade ou a fadiga que agora nos habita. E a mulher que amanhece todos os dias já não se parece tanto com a que adormeceu ontem.
Vivemos tantas vidas dentro de uma só que às vezes parece que fomos sendo trocadas aos poucos — uma peça por vez — como um quebra-cabeça que muda de forma à medida que se completa. Fomos filhas, irmãs, depois amantes, mães, trabalhadoras, errantes, conselheiras. Em alguns momentos, heroínas silenciosas de lutas íntimas; em outros, apenas presenças ofuscadas nos corredores do cotidiano.
Cada fase teve sua música, sua pele, sua intensidade. Houve tempos de urgência, em que tudo ardia: o desejo, o medo, a vontade de sair correndo e também de ficar. Depois vieram tempos de entrega, de construir, de cuidar. E, mais adiante, talvez tenhamos aprendido a desapegar, a desaprender, a não querer tanto. E isso também é uma vida: a da mulher que já não precisa provar nada, nem para os outros, nem para si.
Não é preciso ter mudado de cidade, de sobrenome ou de profissão para ter vivido outras vidas. Basta ter sentido fundo. Ter amado até doer. Ter perdido sem saber se um dia voltaria a sorrir. Ter recomeçado quando tudo parecia encerrado. Porque viver intensamente não é colecionar feitos, mas atravessar com coragem os dias comuns. É deixar que cada emoção nos transforme, mesmo que ninguém perceba de fora.
Sim, é possível viver várias vidas dentro de uma. E talvez essa seja a maior ousadia de existir: não se prender à obrigação de ser sempre a mesma. Trocar de pele, de certezas, de verdades. E ainda assim permanecer fiel a algo essencial — aquilo que pulsa, silencioso, desde o início, lá no fundo, onde nem o tempo alcança.
Silvia Marchiori Buss
Vivemos tantas vidas dentro de uma só que às vezes parece que fomos sendo trocadas aos poucos — uma peça por vez — como um quebra-cabeça que muda de forma à medida que se completa. Fomos filhas, irmãs, depois amantes, mães, trabalhadoras, errantes, conselheiras. Em alguns momentos, heroínas silenciosas de lutas íntimas; em outros, apenas presenças ofuscadas nos corredores do cotidiano.
Cada fase teve sua música, sua pele, sua intensidade. Houve tempos de urgência, em que tudo ardia: o desejo, o medo, a vontade de sair correndo e também de ficar. Depois vieram tempos de entrega, de construir, de cuidar. E, mais adiante, talvez tenhamos aprendido a desapegar, a desaprender, a não querer tanto. E isso também é uma vida: a da mulher que já não precisa provar nada, nem para os outros, nem para si.
Não é preciso ter mudado de cidade, de sobrenome ou de profissão para ter vivido outras vidas. Basta ter sentido fundo. Ter amado até doer. Ter perdido sem saber se um dia voltaria a sorrir. Ter recomeçado quando tudo parecia encerrado. Porque viver intensamente não é colecionar feitos, mas atravessar com coragem os dias comuns. É deixar que cada emoção nos transforme, mesmo que ninguém perceba de fora.
Sim, é possível viver várias vidas dentro de uma. E talvez essa seja a maior ousadia de existir: não se prender à obrigação de ser sempre a mesma. Trocar de pele, de certezas, de verdades. E ainda assim permanecer fiel a algo essencial — aquilo que pulsa, silencioso, desde o início, lá no fundo, onde nem o tempo alcança.
Silvia Marchiori Buss

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