Uma Noite de Verão
A cidade exalava o cheiro doce do verão — frutas amadurecendo cedo demais nas árvores dos quintais, jasmim molhado nas grades das casas, o asfalto ainda quente sob os pés. Clarice caminhava devagar, sem pressa de voltar. No pulso, o elástico da sacola da feira marcava a pele; dentro, pêssegos maduros e um quilo de açúcar mascavo.
Era só mais uma noite morna no bairro onde nada acontecia. Até que aconteceu.
Ali, no coreto antigo da praça — que há anos servia mais de abrigo de pombos do que de música — ela viu Miguel, inclinado sobre uma câmera fotográfica, como se tentasse capturar a nostalgia.
Ele ergueu os olhos. O susto foi mútuo.
— Clarice? — A voz dele não mudara. Era a mesma que sussurrava “fica só mais um pouco” no vão das madrugadas de outros tempos.
— Miguel. — respondeu. O nome veio como se nunca tivesse deixado seus lábios.
Sentaram-se lado a lado no degrau de cimento. O silêncio, a princípio, foi como um copo d’água diante de um incêndio. Mas logo as palavras vieram — frágeis, comedidas, como se pisassem em brasas.
Miguel falava com o corpo. Os olhos dançavam em volta dela. Os dedos, inquietos, brincavam com a tampa da lente.
— Lembra daquela noite em que a gente correu da chuva e se escondeu na padaria da esquina? — perguntou.
— Lembro. A gente comeu dois sonhos com recheio de creme e disse que era o melhor jantar do mundo.
Riram. Riram mais do que deviam.
Falaram dos anos que vieram depois. Ele contou das viagens, dos lugares lindos onde se sentiu só. Das mulheres com quem tentou construir moradas e só conseguiu levantar tendas.
Ela contou do casamento com André, da serenidade amorosa que aprendera a respeitar. De como ele sabia ouvi-la, de como a ajudava a encontrar o chão quando tudo parecia ruir.
— Eu o amo — disse Clarice, como quem precisa lembrar a si mesma.
Miguel não contestou. Mas olhou para o chão por tempo demais.
Foi então que a noite se adensou. Não no céu — que seguia estrelado, limpo —, mas dentro deles. Um tipo de calor que não vinha da temperatura, mas daquilo que não se disse por tempo demais.
Miguel tirou da mochila uma garrafa térmica e dois copinhos.
— Chá de hibisco com canela. Ainda é o seu preferido?
— Ainda. — Ela sorriu, surpresa com a memória dele. Ou talvez com a dela.
O vapor subiu entre eles, como um véu. E ali, no coração da praça, pareceram de novo quem foram. Ele estendeu a mão.
— Quer dançar?
— Aqui?
— Como antes. Como se fosse a última vez.
Ela hesitou. Olhou ao redor, como se a noite pudesse julgá-los. Mas, por dentro, algo em Clarice já sabia: aquela dança não era um recomeço. Era um fim.
Dançaram devagar. O vestido dela roçou as pernas dele. As mãos se encaixaram como antes — como se não tivessem sido tocadas por outros amores. O corpo ainda lembrava.
Durante a dança, Clarice fechou os olhos. Sentiu o cheiro da nuca dele, ouviu a respiração que conhecia de cor. Pensou em tudo o que poderiam ter sido, mas não foram. Pensou na escolha que fizeram, na que ela ainda faria ao voltar pra casa.
Miguel a apertou um pouco mais.
— Por que a gente se largou, Clarice?
Ela demorou para responder.
— Porque a gente era bonito demais pra durar. E intenso demais pra sobreviver.
Ele concordou em silêncio. A música inexistente se despediu com o giro lento do fim.
Quando se soltaram, ela o olhou fundo. Os olhos marejados, mas firmes.
— Eu vou voltar pra casa.
— Eu sei.
— Não te esqueço.
— Nem eu.
Ela se afastou sem virar o rosto. Sabia que, se olhasse para trás, poderia não ir. E ela precisava ir. Não por falta de amor — mas porque agora sabia que o amor também pode ser memória. E que há histórias tão grandes que só cabem em uma noite de verão.
E aquela foi a deles. A última. A mais inteira. A mais bonita.
Era só mais uma noite morna no bairro onde nada acontecia. Até que aconteceu.
Ali, no coreto antigo da praça — que há anos servia mais de abrigo de pombos do que de música — ela viu Miguel, inclinado sobre uma câmera fotográfica, como se tentasse capturar a nostalgia.
Ele ergueu os olhos. O susto foi mútuo.
— Clarice? — A voz dele não mudara. Era a mesma que sussurrava “fica só mais um pouco” no vão das madrugadas de outros tempos.
— Miguel. — respondeu. O nome veio como se nunca tivesse deixado seus lábios.
Sentaram-se lado a lado no degrau de cimento. O silêncio, a princípio, foi como um copo d’água diante de um incêndio. Mas logo as palavras vieram — frágeis, comedidas, como se pisassem em brasas.
Miguel falava com o corpo. Os olhos dançavam em volta dela. Os dedos, inquietos, brincavam com a tampa da lente.
— Lembra daquela noite em que a gente correu da chuva e se escondeu na padaria da esquina? — perguntou.
— Lembro. A gente comeu dois sonhos com recheio de creme e disse que era o melhor jantar do mundo.
Riram. Riram mais do que deviam.
Falaram dos anos que vieram depois. Ele contou das viagens, dos lugares lindos onde se sentiu só. Das mulheres com quem tentou construir moradas e só conseguiu levantar tendas.
Ela contou do casamento com André, da serenidade amorosa que aprendera a respeitar. De como ele sabia ouvi-la, de como a ajudava a encontrar o chão quando tudo parecia ruir.
— Eu o amo — disse Clarice, como quem precisa lembrar a si mesma.
Miguel não contestou. Mas olhou para o chão por tempo demais.
Foi então que a noite se adensou. Não no céu — que seguia estrelado, limpo —, mas dentro deles. Um tipo de calor que não vinha da temperatura, mas daquilo que não se disse por tempo demais.
Miguel tirou da mochila uma garrafa térmica e dois copinhos.
— Chá de hibisco com canela. Ainda é o seu preferido?
— Ainda. — Ela sorriu, surpresa com a memória dele. Ou talvez com a dela.
O vapor subiu entre eles, como um véu. E ali, no coração da praça, pareceram de novo quem foram. Ele estendeu a mão.
— Quer dançar?
— Aqui?
— Como antes. Como se fosse a última vez.
Ela hesitou. Olhou ao redor, como se a noite pudesse julgá-los. Mas, por dentro, algo em Clarice já sabia: aquela dança não era um recomeço. Era um fim.
Dançaram devagar. O vestido dela roçou as pernas dele. As mãos se encaixaram como antes — como se não tivessem sido tocadas por outros amores. O corpo ainda lembrava.
Durante a dança, Clarice fechou os olhos. Sentiu o cheiro da nuca dele, ouviu a respiração que conhecia de cor. Pensou em tudo o que poderiam ter sido, mas não foram. Pensou na escolha que fizeram, na que ela ainda faria ao voltar pra casa.
Miguel a apertou um pouco mais.
— Por que a gente se largou, Clarice?
Ela demorou para responder.
— Porque a gente era bonito demais pra durar. E intenso demais pra sobreviver.
Ele concordou em silêncio. A música inexistente se despediu com o giro lento do fim.
Quando se soltaram, ela o olhou fundo. Os olhos marejados, mas firmes.
— Eu vou voltar pra casa.
— Eu sei.
— Não te esqueço.
— Nem eu.
Ela se afastou sem virar o rosto. Sabia que, se olhasse para trás, poderia não ir. E ela precisava ir. Não por falta de amor — mas porque agora sabia que o amor também pode ser memória. E que há histórias tão grandes que só cabem em uma noite de verão.
E aquela foi a deles. A última. A mais inteira. A mais bonita.
Silvia Marchiori Buss

Comentários
Postar um comentário