Um Pouco Antes da Chuva

Era final de tarde quando Eugênia parou o carro em frente à antiga casa dos avós. A fachada estava quase igual: o portão baixo de ferro enferrujado, as plantas crescidas demais no jardim, e o mesmo cheiro de terra molhada no ar — um prenúncio conhecido de que a chuva viria logo.

Ela desceu devagar, como quem pisa no passado. Carregava nas mãos um caderno de capa dura e, na memória, lembranças que insistiam em reaparecer sempre que o céu se fechava assim, com aquela luz de prata dissolvida nas nuvens.

— É você mesma? — veio uma voz da varanda.

Eugênia sorriu. Seu tio Lauro, agora mais curvado e com os cabelos totalmente brancos, ajeitava uma cadeira de palha sob o beiral. Ele era o último a ainda morar por ali, o guardião das histórias, o que nunca quis ir embora.

— Eu mesma — respondeu ela, aproximando-se. — Vim antes da chuva.

Lauro riu. Era uma frase antiga, deles. Sempre que ela dizia que chegaria “um pouco antes da chuva”, queria dizer que viria antes das urgências, dos compromissos, da pressa — que viria só por vir.

Ela sentou-se ao lado dele, e os dois ficaram em silêncio por um tempo, ouvindo os trovões ainda distantes. No quintal, as folhas das bananeiras se mexiam como se sussurrassem segredos antigos. A vida, por um instante, parecia suspensa.

— Você lembra das tardes de sábado aqui? — ele perguntou, sem tirar os olhos do céu.

— Lembro. Lembro da vovó assando bolo de fubá, do vô dormindo com o jornal no colo, da gente jogando dominó com grito e trapaça.

— E da chuva batendo no telhado?

— Como música — disse Eugênia, emocionada.

Ela abriu o caderno. Dentro, desenhos que fizera quando menina: a casa, o quintal, os cachorros. Guardara aquilo por anos, esperando o momento certo de voltar. Não para reviver — mas para tocar o tempo com as mãos e entender que algumas coisas não precisam mudar para continuar vivas.

Lauro folheou o caderno, devagar, os dedos tremendo um pouco.

— O tempo passou mesmo, não é?

— Passou — ela disse —, mas não tudo. Algumas coisas ficam. O cheiro da chuva, por exemplo. O jeito como ela chega… de mansinho, mas inevitável.

As primeiras gotas começaram a cair, grossas, espaçadas. Um cheiro de infância invadiu a varanda.

— Vamos entrar? — perguntou ele.

Eugênia balançou a cabeça. — Ainda não. Quero ficar mais um pouco. Até chover de verdade.

Ele sorriu, como se entendesse. E ficou.


Lá dentro, a casa ainda guardava seus pequenos rituais. O sino de vento na cozinha, os vidros de doce alinhados na prateleira, a cortina de renda na janela que balançava com qualquer brisa.

Mais tarde, Eugênia passeou pelos cômodos como quem anda dentro de um livro antigo. Tocou os azulejos da cozinha, espiou a cristaleira, abriu uma gaveta da sala e encontrou a caixinha com cartas de baralho que usavam nas tardes chuvosas.

— Lembra da vez que fizemos um campeonato de truco e a vó ficou brava porque o vô gritou “seis!” no ouvido dela? — Eugênia disse, rindo.

— Claro que lembro. Ela ameaçou não fazer mais bolo por uma semana.

— E no dia seguinte fez dois.

Os dois riram, sem pressa, como se o riso pudesse atrasar um pouco mais o tempo. Lauro trouxe duas xícaras de chá. Sentaram-se outra vez na varanda, agora com a chuva firme, ritmada, preenchendo os espaços entre as palavras. E então Eugênia falou de seu trabalho, das inquietações, da sensação de que tudo andava rápido demais.

— Às vezes eu penso que tudo que eu preciso é disso aqui — ela disse. — Um tempo de varanda antes da chuva.

— A gente passa a vida inteira querendo chegar a algum lugar — respondeu ele. — E, quando chega, percebe que o melhor mesmo era o caminho. Ou a pausa no meio do caminho.

Eugênia encostou a cabeça no ombro do tio. Lá fora, a terra agradecia a água. Dentro dela, algo também se aquietava.

Naquela casa onde nada parecia urgente, o tempo deixava de correr. E tudo o que existia — o barulho da chuva, o cheiro do mato molhado, o calor da xícara entre os dedos — era suficiente.



 
Silvia Marchiori Buss

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