Talco de Lavanda

O cheiro de talco de lavanda ainda pairava no ar, como se o tempo, por delicadeza, tivesse se recusado a passar naquele quarto. Cada vez que Luísa abria a gaveta da antiga cômoda de pinho, era como se voltasse à infância – não à infância propriamente dita, mas àquela parte da infância que escolhemos guardar.

Era na casa de Cecília que o mundo fazia sentido. Tia Cecília, na verdade, mas Luísa nunca a chamou assim. Era só Cecília – nome de flor e de aconchego. Irmã de sua mãe, vinte anos mais velha, nunca se casara e parecia ter guardado todo o amor do mundo para derramar sobre a sobrinha.

Cecília era uma mulher feita de rituais. Passava creme nas mãos todas as noites antes de dormir, usava leite de colônia no rosto rosado, penteava os cabelos longos diante do espelho como se conversasse com o reflexo e usava, sem exceção, o mesmo talco de lavanda desde que Luísa se entendia por gente. Quando Luísa chegava da escola e largava os sapatos pela casa, era o cheiro do talco que a guiava até o colo de Cecília. Sentava-se no sofá, ouvia histórias – algumas inventadas, outras da juventude da tia – e, entre uma frase e outra, Cecília passava os dedos pelos cabelos da menina, como quem costura silêncio e segurança.

O tempo passou – como sempre passa, mesmo quando a gente pede que espere. Luísa cresceu, foi estudar longe, teve pressa demais para visitas demoradas. Cecília, no entanto, permaneceu. Continuou usando o mesmo talco, com os mesmos rituais, e enviando cartas manuscritas com letras miúdas e redondas, sempre começando com “minha menina querida”, mesmo quando Luísa já era mãe.

Quando Cecília adoeceu, não quis hospital. Pediu para ficar em casa, entre seus livros, seus bordados e seus perfumes. Luísa voltou. Chegou com os olhos inchados e a alma apertada. Sentou-se ao lado da cama como tantas vezes Cecília fizera por ela, em noites de febre e pesadelos.

Naquela última semana, pouco falaram. Mas foi como se tudo já tivesse sido dito.

Luísa penteava os cabelos brancos da tia com o mesmo cuidado que recebera em menina.
Às vezes chorava, às vezes sorria. E, sempre, sentia o cheiro de talco de lavanda espalhar-se pelo quarto – como se aquele aroma guardasse, comprimido em partículas invisíveis, todos os anos de afeto, de cuidado, de pertencimento.

Quando Cecília partiu, Luísa não gritou. Apenas deitou-se ao lado do corpo inerte, respirou fundo e murmurou:
– Você foi minha casa, Cecília.

E, ao abrir a gaveta da cômoda, não procurou documentos, nem joias, nem testamentos. Pegou o frasco do talco, ainda cheio, e levou consigo.

Hoje, anos depois, Luísa o mantém fechado. Só o abre de tempos em tempos, quando a vida parece dura demais. Então, deixa o pó escorrer devagar entre os dedos, como se talco com cheiro de lavanda tivesse o poder de curar as perdas que nem o tempo consegue dissolver.

Luísa sabe que certas presenças não morrem. Elas apenas se transformam em cheiro.
Em gesto.
Em memória.
Em lavanda.



Silvia Marchiori Buss

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