Queremos o Óbvio
Queremos o óbvio, mas é como se o mundo tivesse desaprendido a oferecê-lo.
Não estamos pedindo que nos amem como nos filmes, que nos
surpreendam com flores ou jantares sob estrelas — embora tudo isso seja bonito.
Queremos o simples, o essencial, o que deveria ser pressuposto. Que não nos
interrompam enquanto falamos. Que não sumam sem explicação. Que saibam o que
fazer com a nossa vulnerabilidade quando ela aparecer sem maquiagem.
Queremos o gesto sem cerimônia. O cuidado que não se
anuncia. A presença que não pesa, mas preenche.
Ninguém aguenta mais a estética do “ser especial” a
qualquer custo, enquanto por dentro todo mundo está só querendo ser levado a
sério. Um pouco de escuta, um pouco de verdade. Alguém que nos veja não como
projeto, nem como distração, mas como pessoa — com manias, com horários, com
dias ruins.
Tem gente colecionando frases bonitas e perdendo gente
que só queria ser tratada com um pouco de gentileza.
E não, não é pedir demais. É pedir o mínimo. Que alguém
lembre o que você gosta no café da manhã. Que pergunte se você chegou bem em
casa sem que isso seja um favor. Que perceba quando o seu riso é só disfarce.
Que não fuja sempre que o silêncio cair na sala.
O problema é que o óbvio exige esforço. E esforço, hoje,
parece ter virado ofensa.
Preferem manter relações leves, fáceis, rápidas. Onde
tudo se resume a tempo, e a conexão é medida pela frequência dos emojis
trocados — não pela profundidade das conversas. Mas há um cansaço que cresce no
peito de quem, no fundo, não quer mais performance. Só quer poder existir ao
lado de alguém, sem precisar provar o tempo todo que merece estar ali.
Queremos o óbvio. Mas, para isso, seria preciso que as
pessoas desaprendessem a arte do jogo e reaprendessem a arte do vínculo.
Enquanto isso não acontece, seguimos: com fome do que
nunca deveria ter deixado de ser o básico.
Silvia Marchiori Buss
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