Pequenos Incêndios
Eles não deixavam rastros de fumaça nem estampavam sirenes no céu. Mas ardiam, eram incêndios íntimos, quase invisíveis. Ardor que começa miúdo e, se não se vê, se alastra. Alguns disfarçados de rotina. Outros de silêncio.
Na casa número 18, Marieta cultivava a aparência de normalidade como quem varre brasa para debaixo do tapete.
Desde que o filho se foi, a casa ecoava de um jeito cruel. Ela preparava o café como sempre, mas o tilintar das xícaras parecia zombar do vazio ao redor. Silvio, o marido, não via – ou fingia não ver. Continuava lendo jornal em silêncio, como se a ausência fosse só uma fase. Mas Marieta ardia. Ardia na solidão acompanhada, no toque que não vinha, nas palavras que ela não dizia por que já havia desistido de escutar a resposta.
Na casa ao lado, Camila repetia a palavra “feliz” com uma frequência ensaiada. Publicava fotos sorrindo, segurando a mão do namorado como se segurasse uma ideia. Mas a lembrança de Ana não passava. Ao contrário: se tornava mais nítida nos detalhes – no cheiro de jasmim das noites quentes, na gargalhada abafada por culpa, no beijo que ainda queimava na memória como o primeiro e o último. Camila vivia o amor certo para os outros e errado para si mesma. O incêndio dela era discreto, mas constante. Um lume sob a pele.
Na esquina, seu Edmundo fazia questão de contar piadas na padaria, de comentar o clima com os vizinhos, de passear com os cães sempre no mesmo horário. Era sua forma de manter o mundo no lugar. Mas à noite, ao chegar em casa, tirava o chapéu diante da fotografia da esposa e murmurava um “cheguei”, como quem tenta manter viva uma presença. O luto, em sua forma mais amarga, era o que ele não dizia a ninguém: que tudo desde a morte dela era só sobrevivência. Seu incêndio era uma chama tênue, mas teimosa, que queimava nas entrelinhas de cada gesto automatizado.
E havia Joana, que andava sempre ligeira, como quem tenta fugir de si mesma. Enfermeira na UTI, era elogiada pela sua firmeza, mas ninguém via o que ela levava para casa: os rostos que não conseguia esquecer, os nomes que murmurava em sonhos, a mãe doente que exigia mais do que ela podia dar.
Joana não chorava – não mais. Só sentia um cansaço que não passava, um cansaço da alma. O Incêndio dela era abafado por obrigação, por culpa, por medo. Mas ardia mesmo assim.
Nenhum deles sabia do fogo do outro. Os vizinhos se cumprimentavam com cordialidade e disfarces. Os pequenos incêndios seguiam ali, sem alarde, sem explosão. Apenas consumindo devagar o que havia de mais íntimo.
Numa noite abafada, a luz caiu. O bairro mergulhou numa escuridão estranha, quase simbólica. Não foi longa – durou só alguns minutos. Mas naquele breu breve, sem distrações, sem telas, sem tarefas, cada um foi obrigado a escutar o próprio silêncio.
Marieta olhou para Sílvio e pensou em dizer algo, mas engoliu.
Camila, sentada no escuro, tocou a cicatriz no pulso que ninguém sabia que ela tinha.
Seu Edmundo acendeu uma vela, não por necessidade, mas para não se esquecer de como era acender qualquer coisa.
Joana, ainda no ônibus, fechou os olhos e desejou que ninguém dependesse dela por algumas horas.
E então a luz voltou.
Os dias seguintes pareceram iguais. Mas talvez não fossem. Porque mesmo incêndios pequenos, quando reconhecidos, deixam marcas – mesmo que ninguém mais veja. E às vezes, é o que basta: saber que se queima. E que ainda se está vivo.
Silvia Marchiori Buss
Na casa número 18, Marieta cultivava a aparência de normalidade como quem varre brasa para debaixo do tapete.
Desde que o filho se foi, a casa ecoava de um jeito cruel. Ela preparava o café como sempre, mas o tilintar das xícaras parecia zombar do vazio ao redor. Silvio, o marido, não via – ou fingia não ver. Continuava lendo jornal em silêncio, como se a ausência fosse só uma fase. Mas Marieta ardia. Ardia na solidão acompanhada, no toque que não vinha, nas palavras que ela não dizia por que já havia desistido de escutar a resposta.
Na casa ao lado, Camila repetia a palavra “feliz” com uma frequência ensaiada. Publicava fotos sorrindo, segurando a mão do namorado como se segurasse uma ideia. Mas a lembrança de Ana não passava. Ao contrário: se tornava mais nítida nos detalhes – no cheiro de jasmim das noites quentes, na gargalhada abafada por culpa, no beijo que ainda queimava na memória como o primeiro e o último. Camila vivia o amor certo para os outros e errado para si mesma. O incêndio dela era discreto, mas constante. Um lume sob a pele.
Na esquina, seu Edmundo fazia questão de contar piadas na padaria, de comentar o clima com os vizinhos, de passear com os cães sempre no mesmo horário. Era sua forma de manter o mundo no lugar. Mas à noite, ao chegar em casa, tirava o chapéu diante da fotografia da esposa e murmurava um “cheguei”, como quem tenta manter viva uma presença. O luto, em sua forma mais amarga, era o que ele não dizia a ninguém: que tudo desde a morte dela era só sobrevivência. Seu incêndio era uma chama tênue, mas teimosa, que queimava nas entrelinhas de cada gesto automatizado.
E havia Joana, que andava sempre ligeira, como quem tenta fugir de si mesma. Enfermeira na UTI, era elogiada pela sua firmeza, mas ninguém via o que ela levava para casa: os rostos que não conseguia esquecer, os nomes que murmurava em sonhos, a mãe doente que exigia mais do que ela podia dar.
Joana não chorava – não mais. Só sentia um cansaço que não passava, um cansaço da alma. O Incêndio dela era abafado por obrigação, por culpa, por medo. Mas ardia mesmo assim.
Nenhum deles sabia do fogo do outro. Os vizinhos se cumprimentavam com cordialidade e disfarces. Os pequenos incêndios seguiam ali, sem alarde, sem explosão. Apenas consumindo devagar o que havia de mais íntimo.
Numa noite abafada, a luz caiu. O bairro mergulhou numa escuridão estranha, quase simbólica. Não foi longa – durou só alguns minutos. Mas naquele breu breve, sem distrações, sem telas, sem tarefas, cada um foi obrigado a escutar o próprio silêncio.
Marieta olhou para Sílvio e pensou em dizer algo, mas engoliu.
Camila, sentada no escuro, tocou a cicatriz no pulso que ninguém sabia que ela tinha.
Seu Edmundo acendeu uma vela, não por necessidade, mas para não se esquecer de como era acender qualquer coisa.
Joana, ainda no ônibus, fechou os olhos e desejou que ninguém dependesse dela por algumas horas.
E então a luz voltou.
Os dias seguintes pareceram iguais. Mas talvez não fossem. Porque mesmo incêndios pequenos, quando reconhecidos, deixam marcas – mesmo que ninguém mais veja. E às vezes, é o que basta: saber que se queima. E que ainda se está vivo.
Silvia Marchiori Buss

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