Pedaços de Mim

Desde pequena, Júlia colecionava coisas: tampinhas de garrafa, bilhetes escritos à mão, folhas secas em cadernos velhos. Chamava aquilo de “pedaços do tempo”. Aprendera com o pai, seu primeiro melhor amigo, que a memória é como uma caixa de botões antigos — nem sempre sabemos de onde vieram, mas guardamos porque, de algum modo, ainda nos servem.

Foi o pai quem lhe mostrou a beleza dos detalhes, dos silêncios bem vividos, das perguntas sem pressa. Com ele, Júlia aprendeu que o mundo era maior do que o quintal onde brincava, mas que era possível carregá-lo em pequenos gestos: um café passado com atenção, um olhar cúmplice, uma história contada com a mesma voz das noites de febre.

Aos vinte, Júlia conheceu Carlos. Não foi paixão à primeira vista. Foi algo mais raro: um reconhecimento. Como se ambos tivessem vivido juntos em outra existência, ou talvez só tivessem se esbarrado tantas vezes na mesma calçada da vida que, um dia, pararam e disseram “é você”.

Carlos era discreto, cheio de manias e silêncios, mas com um humor que vinha manso, feito brisa de fim de tarde. Riam por qualquer bobagem, se olhavam no trânsito, dividiam o mesmo copo d’água na madrugada. Casaram-se sem pompa — bolo de laranja da avó, amigos em cadeiras de plástico, música vinda do rádio da cozinha. E foram sendo felizes, no ritmo possível, como quem cultiva um jardim entre o caos da cidade.

Tiveram os filhos: Lucas, intenso; Mariana, observadora. Júlia mergulhou na maternidade como quem reaprende a respirar. Descobriu que o amor pode ser exaustivo, que cuidar dói nas costas e no peito, e que ser mãe é, muitas vezes, não caber mais dentro de si mesma. Houve dias em que chorou trancada no banheiro, com saudade de um silêncio só dela. E houve noites em que vigiou o sono dos filhos com uma ternura tão absurda que parecia inventada.

O tempo passou. E, com ele, outras “Júlias” surgiram.

Houve a Júlia que quis estudar novamente e descobriu, na sala de aula, a menina curiosa que havia silenciado por anos. Houve a Júlia que viajou sozinha e dormiu num quarto estranho sem sentir medo. A que descobriu o prazer de andar sem destino. A que quis voltar a dançar. A que lia nas madrugadas. A que ficou em silêncio por semanas. A que explodiu. A que pediu desculpas. A que não pediu.

E Carlos?

Carlos ficou. Ficaram os dois. Não por falta de escolha, mas por reinvenção. Aprenderam a se amar muitas vezes. Júlia se apaixonou por pelo menos três versões diferentes do marido, sem trocar de homem. E Carlos, generoso em sua simplicidade, amou todas as mulheres que Júlia foi sendo — mesmo quando não entendeu de imediato.

Tiveram crises. Ficaram dias sem conversar. Dormiram de costas. Disseram coisas feias. Quiseram desistir. Mas havia algo entre eles mais antigo que a vontade de ir embora: o compromisso de permanecer — não por obrigação, mas porque havia afeto nos escombros. E vontade de reconstruir, com outros tijolos.

A vida, afinal, era feita disso: colagens, reparos, rasgos costurados à mão.

Hoje, Júlia tem os cabelos prateados e as mãos com veias aparentes. Gosta de observar o entardecer da varanda, com os pés descalços e um café forte ao lado. Carlos lê ao seu lado. Às vezes conversam, às vezes só respiram ao mesmo tempo. É o suficiente.

Júlia olha para trás e vê: foi filha, esposa, mãe, estudante, amante, dona de casa, viajante, amiga, solitária, vibrante, exausta, apaixonada, descrente, inteira.

Teve muitas vidas.

E todas eram suas.



Silvia Marchiori Buss

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