Onde Dormem as Andorinhas

O campo amanhecia devagar, como se soubesse que ele não tinha pressa. José acordava antes do sol – não por obrigação, mas por costume. Havia anos que era assim: café passado no coador de pano, botas gastas aos pés e uma conversa muda com o céu ainda cinzento.

A casa era pequena, feita de madeira antiga, com cheiro de terra molhada e silêncio. O rádio já não funcionava, mas ele o ligava mesmo assim, como quem insiste numa memória. Na parede da cozinha, ainda estava o retrato de Lurdes – cabelos presos com uma flor do campo, sorriso de canto, olhos de quem sabia mais do que dizia. Era a única que soubera conversar com o tempo junto dele.

Lurdes se foi numa tarde de setembro. Um infarto fulminante, disseram. Ele nunca soube exatamente o que isso queria dizer, exceto que, desde aquele dia, o mundo ficou oco.

Não quis vender a propriedade. Tampouco voltou à cidade. Preferiu ficar. “Lá não cabe mais meu silêncio”, dizia, se alguém insistia. No campo, aprendeu a lidar com a ausência como quem lida com as geadas: inevitáveis, mas passageiras. Passavam, mas deixavam marcas.

As galinhas o seguiam como crianças obedientes, e os cavalos reconheciam seu passo de longe. Ele falava com eles, não por loucura, mas porque eram sua audiência mais fiel. Contava histórias antigas, lembrava de piadas que Lurdes ria, comentava sobre o tempo, reclamava dos dias que amanheciam tristes demais. E eles escutavam. Sempre escutavam.

Às vezes, à tardinha, sentava-se na varanda com uma caneca de mate e ficava olhando os pássaros riscarem o céu. Quando as andorinhas chegavam, fazia silêncio. Lurdes gostava de andorinhas. Dizia que elas sabiam o caminho mesmo quando ninguém sabia. Ele acreditava.

O vizinho mais próximo, um rapaz recém-chegado, tentava entender aquele homem calado que não buscava consolo em nada – nem em igreja, nem em gente, nem em distração. Um dia, teve coragem de perguntar:

– O senhor não sente falta de companhia?

José olhou devagar, como se pensasse com os ossos.

– Companheira eu já tive. O resto é barulho.

Naquela noite, o rapaz foi embora carregando um silêncio novo dentro de si.

E José, como de costume, colocou um pouco de milho para as galinhas, fechou a porteira, acariciou o pescoço do cavalo e subiu os dois degraus de madeira rangente da varanda. Antes de entrar, olhou para o céu.

– Boa noite, minha Lurdes. As andorinhas voltaram hoje.

E entrou.

A casa, que para os outros era só vazia, para ele era morada de memórias que não faziam alarde. E ali, entre o cheiro de terra e o canto distante do campo, José vivia.

Não esperando. Apenas vivendo.

Onde dormem as andorinhas. Onde ela ainda morava com ele – de um jeito que o tempo não soube apagar.




Silvia Marchiori Buss

 

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