O Lugar é o Mesmo

O táxi parou diante da casa como quem devolve uma memória ao lugar de onde ela nunca deveria ter saído. Vera hesitou alguns segundos antes de abrir a porta. O motorista nem perguntou se ela precisava de ajuda com a mala – era pequena demais para parecer uma mudança, grande demais para ser só uma visita.

A fachada da casa seguia igual. O portão verde desbotado, a parede com pequenas rachaduras disfarçadas por trepadeiras persistentes, o velho banco de madeira sob a janela da sala. Tudo no lugar. Como se o tempo tivesse feito questão de manter a estrutura enquanto ela se desfazia por dentro.

Empurrou a porta e a madeira rangeu, como sempre. O mesmo cheiro: um misto de lavanda antiga e café esquecido. No aparador, a tigela de cerâmica azul, onde costumavam ficar as chaves. No chão, as marcas ainda visíveis do tapete que ela levou no último rompante de fuga.

Mas ela não estava ali.

Seu corpo estava ali. Os pés reconheceram o chão, os olhos varreram os cantos, mas dentro dela havia um abismo entre a lembrança e a presença. Como se a casa fosse uma fotografia: fiel nos detalhes, vazia de pulsação.

Foi até o quarto. A colcha ainda era a mesma, dobrada com exatidão matemática. Sobre o criado-mudo, um livro aberto em uma página marcada – ela não lembrava qual fora a última frase lida, mas sabia que não conseguiria retomá-la agora. Leu três vezes um parágrafo sem absorver palavra alguma. Era como tentar acender uma vela ao vento.

Desceu as escadas e foi até o quintal. As árvores haviam crescido. A jabuticabeira dava sombra onde antes era apenas sol. Ela se sentou no chão, encostada no tronco. Olhou o céu por entre os galhos e ali, naquele intervalo entre o verde e o azul, pensou em tudo o que havia se transformado sem alarde.

Na Vera que foi embora, na Vera que voltou, na Vera que apenas observa agora.

A campainha tocou. Ela não atendeu. O som continuou por alguns segundos e depois cessou, como tudo que insiste sem resposta. Ficou ali, imóvel, enquanto a tarde escurecia sem cerimônia.

O lugar era o mesmo.

Mas Vera já não estava ali.

Ou talvez estivesse – de outro jeito, em outro tempo, do lado de dentro de algo que ela mesma ainda não sabia nomear.

 


Silvia Marchiori Buss

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