O Adeus se Dá Devagar

Há despedidas que não têm hora marcada. Não chegam com anúncio, nem com alarde. Vão se instalando pelas frestas do cotidiano, feito luz que escapa por entre as cortinas – quase imperceptível, mas constante.

Há quem parta aos poucos. Primeiro, deixa de pentear os cabelos com tanto afinco. Depois, esquece o açúcar no café. Mais adiante, já não comenta sobre o tempo, nem pergunta sobre o dia do outro. Vai ficando mais leve, como quem começa a deixar as malas pelo caminho. E a gente, do lado de cá, custa a perceber que aquilo já é adeus.

Nem sempre há dor visível. Às vezes, há apenas um cansaço manso nos olhos, uma espécie de paz que assusta. Quem está indo não quer alarmar, nem provocar lágrimas. Vai deixando bilhetes invisíveis nos gestos: um prato lavado com cuidado, uma flor cheirosa no vaso já esquecido.

Talvez por isso, vez ou outra a gente olha para o céu sem saber por quê. Talvez seja só uma forma de lembrar de onde viemos – ou de quem nos ensinou, com gestos simples, a dançar antes que a música acabasse.

E seguimos. Com saudade, sim. Mas também com gratidão. Porque quem amou de verdade nunca vai embora por completo – permanece no que somos, no que fazemos, no modo como aprendemos a amar depois deles.

No fundo, há adeuses que não encerram nada. Apenas transformam presença em memória, quando carregada de afeto, é um tipo de eternidade.

Silvia Marchiori Buss

 

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