O Adeus de Carolina
Ninguém soube ao certo quando começou a partida de Carolina. Não foi daquelas despedidas marcadas com data e hora. Foi mais como uma vela que se apaga devagar, resistindo à brisa até o último sopro.
Ela sempre foi uma mulher de silêncios densos, daqueles que dizem mais do que muitos discursos. Quando a cidade ainda dormia, Carolina já varria o quintal de terra batida, molhava as plantas com o cuidado de quem entende o peso de uma pétala, preparava o café com uma lentidão que parecia oração.
Era mãe de três, avó de cinco, filha de uma mulher que jamais lhe disse "eu te amo", mas que lhe ensinou a amar com gestos. E foi esposa de um homem chamado Vicente — o único que soube ler o que ela nunca disse.
Com Vicente, não houve grandes juras nem promessas solenes. O amor deles foi chão. Feito de pão na chapa e silêncio partilhado ao fim do dia. Mas houve uma noite que Carolina nunca esqueceu.
Foi numa noite comum, dessas em que a chuva fina começa sem avisar. Os filhos já dormiam, a luz da cozinha era a única acesa na casa. Vicente entrou, tirando os sapatos molhados e o casaco encharcado. Carolina o olhou com uma xícara de chá nas mãos e um sorriso sem pressa. Ele se aproximou e disse apenas:
— Vamos dançar?
Ela riu.
— Aqui?
Ele estendeu a mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E era. Naquele chão gasto da cozinha, entre a mesa e o fogão, os dois dançaram uma música que o rádio nem estava tocando. Apenas se moveram devagar, embalados pela chuva lá fora e por uma ternura que só quem vive junto há tempo entende.
Nenhum dos dois disse “eu te amo”. Mas Carolina guardou aquele momento como quem guarda um relicário: era ali que morava a certeza.
Nos últimos meses, foi ficando mais leve. Não fisicamente — a doença não teve pressa — mas leve como quem começa a deixar as malas pelo caminho. Um dia deixou de pentear os cabelos com tanto afinco, no outro, esqueceu de colocar açúcar no café. Começava a se despedir das pequenas coisas, sem anunciar.
A neta mais nova, Helena, certa tarde perguntou:
— Vó, por que você fica olhando tanto pro céu?
Carolina sorriu, aquele sorriso que cabia tristeza e ternura num mesmo canto de boca.
— Porque quando a gente vai embora, é bom saber de onde veio.
No penúltimo dia, pediu que colocassem a cadeira de balanço na varanda. Queria ver o entardecer. Chamou Helena, pediu que ela segurasse sua mão e apenas ficasse ali, sem perguntas.
— Tem um tempo pra chegar e um tempo pra ir, minha flor. E nenhum deles é nosso.
No último dia, Carolina acordou mais cedo que o sol. Sozinha, como havia aprendido a estar. Abriu a janela do quarto, respirou fundo e escreveu três bilhetes. Um para cada filho. Sem conselhos, sem instruções. Apenas memórias: um cheiro de bolo, uma história contada à meia-luz, uma frase dita num dia qualquer. Era o amor dela, embrulhado em lembranças.
Foi encontrada pela manhã, ainda com um leve sorriso, como quem escolheu a hora e partiu em paz.
Os vizinhos disseram que o céu, naquela manhã, ficou mais claro.
Ela sempre foi uma mulher de silêncios densos, daqueles que dizem mais do que muitos discursos. Quando a cidade ainda dormia, Carolina já varria o quintal de terra batida, molhava as plantas com o cuidado de quem entende o peso de uma pétala, preparava o café com uma lentidão que parecia oração.
Era mãe de três, avó de cinco, filha de uma mulher que jamais lhe disse "eu te amo", mas que lhe ensinou a amar com gestos. E foi esposa de um homem chamado Vicente — o único que soube ler o que ela nunca disse.
Com Vicente, não houve grandes juras nem promessas solenes. O amor deles foi chão. Feito de pão na chapa e silêncio partilhado ao fim do dia. Mas houve uma noite que Carolina nunca esqueceu.
Foi numa noite comum, dessas em que a chuva fina começa sem avisar. Os filhos já dormiam, a luz da cozinha era a única acesa na casa. Vicente entrou, tirando os sapatos molhados e o casaco encharcado. Carolina o olhou com uma xícara de chá nas mãos e um sorriso sem pressa. Ele se aproximou e disse apenas:
— Vamos dançar?
Ela riu.
— Aqui?
Ele estendeu a mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E era. Naquele chão gasto da cozinha, entre a mesa e o fogão, os dois dançaram uma música que o rádio nem estava tocando. Apenas se moveram devagar, embalados pela chuva lá fora e por uma ternura que só quem vive junto há tempo entende.
Nenhum dos dois disse “eu te amo”. Mas Carolina guardou aquele momento como quem guarda um relicário: era ali que morava a certeza.
Nos últimos meses, foi ficando mais leve. Não fisicamente — a doença não teve pressa — mas leve como quem começa a deixar as malas pelo caminho. Um dia deixou de pentear os cabelos com tanto afinco, no outro, esqueceu de colocar açúcar no café. Começava a se despedir das pequenas coisas, sem anunciar.
A neta mais nova, Helena, certa tarde perguntou:
— Vó, por que você fica olhando tanto pro céu?
Carolina sorriu, aquele sorriso que cabia tristeza e ternura num mesmo canto de boca.
— Porque quando a gente vai embora, é bom saber de onde veio.
No penúltimo dia, pediu que colocassem a cadeira de balanço na varanda. Queria ver o entardecer. Chamou Helena, pediu que ela segurasse sua mão e apenas ficasse ali, sem perguntas.
— Tem um tempo pra chegar e um tempo pra ir, minha flor. E nenhum deles é nosso.
No último dia, Carolina acordou mais cedo que o sol. Sozinha, como havia aprendido a estar. Abriu a janela do quarto, respirou fundo e escreveu três bilhetes. Um para cada filho. Sem conselhos, sem instruções. Apenas memórias: um cheiro de bolo, uma história contada à meia-luz, uma frase dita num dia qualquer. Era o amor dela, embrulhado em lembranças.
Foi encontrada pela manhã, ainda com um leve sorriso, como quem escolheu a hora e partiu em paz.
Os vizinhos disseram que o céu, naquela manhã, ficou mais claro.

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