Num Lugar Bem Distante
Dizem que a felicidade mora longe. Que está guardada em um lugar bem distante – talvez numa casa de campo com janelas abertas para um vale florido, ou numa praia de águas mornas onde o tempo caminha descalço. Muitos acreditam nisso. E, por acreditarem, vão adiando a alegria.
Guardam o riso para o sábado.
A dança para as férias. O abraço para quando houver menos pressa. O amor para
depois das dores resolvidas. E assim, os dias passam como páginas em branco,
esperando um capítulo extraordinário que talvez nunca venha.
Mas a verdade é que a
felicidade não tem endereço fixo. Ela não mora no fim do mundo, nem depois da
aposentadoria, nem em outro continente. Ela se esconde nos detalhes miúdos: no
café quente segurado com as duas mãos, na brisa que entra sem pedir licença pela
fresta da janela, na risada inesperada que escapa mesmo nos dias nublados.
Há quem passe a vida inteira
acreditando que será feliz “quando”. Quando se casar. Quando se mudar. Quando
os filhos crescerem. Quando tiver mais tempo. Quando for verão. Quando estiver
em paz. Mas o “quando” é um lugar que nunca chega, e a vida, silenciosa, vai se
perdendo nas entrelinhas da espera.
Felicidade não é um destino. É
travessia.
E às vezes ela sussurra:
“estou aqui”, no meio do cansaço, no meio da rotina, no meio do barulho comum
dos dias. Basta parar de olhar tão longe. Porque o lugar bem distante que tanto
procuramos pode, na verdade, estar bem perto. No agora. No simples. No
possível.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário