Não Quero Dizes Adeus
Jussara segurava a borda da colcha como quem se apega a um porto antes da maré levar tudo. Os dedos tremiam, mas não era frio. Era o que vinha depois da última frase, do último abraço, da última xícara de café. Era o depois que ela temia.
A mala estava pronta desde ontem, encostada na porta como um convite silencioso à partida. Ela fingia que não via. Andava pela casa como se ainda houvesse tempo — arrumando gavetas que não precisavam, molhando plantas que não estavam secas, passando os dedos pelas fotos empoeiradas da estante como se pudesse tocá-los mais uma vez.
Henrique a observava do batente da cozinha. Já não discutia. Também já não pedia que ela fosse. Só esperava. Esperava com aquele olhar de quem entende tudo, mas não consegue impedir nada.
— Você vai mesmo? — ela perguntou, como se fosse a primeira vez.
— Vou — ele respondeu, com a calma triste dos que já disseram isso muitas vezes.
Ele não queria ir, ela não queria que ele fosse, mas ambos sabiam que às vezes querer não tem força. Henrique recebera uma proposta de trabalho longe. Muito longe. Não era só uma cidade diferente — era outra vida. Uma vida que não cabia na rotina que dividiam há sete anos, nem no apartamento de dois quartos, nem na agenda compartilhada de compras de feira e aniversários de sobrinhos.
— E se eu te pedisse pra ficar? — Jussara ousou, quebrando o silêncio como quem atira uma pedra no espelho d’água.
— Eu ficaria — ele respondeu, com honestidade cruel — mas você nunca mais me olharia do mesmo jeito.
— E se eu fosse com você?
— Você deixaria de ser quem é.
Ela sorriu triste. Sabia que ele tinha razão. E era isso que doía. O amor não havia acabado. Era justamente por ainda existir que a despedida era tão difícil. Se tivessem se esgotado em mágoas, seria mais simples. Mas estavam plenos. Eram bons um com o outro. Só não eram certos para o que viria.
Henrique caminhou até ela. Sentou-se ao lado. Pegou sua mão com um carinho sem pressa, como se ainda pudessem congelar aquele instante.
— A gente não vai se perder — disse ele.
Ela assentiu, sem saber se era promessa ou consolo.
— Eu só não queria dizer adeus — confessou, com a voz engasgada.
— Então não diga — ele murmurou. — Diga “vai com cuidado”, “não esquece de mim”, “seja feliz, mesmo sem mim”.
O abraço demorou mais do que qualquer relógio podia medir. Não houve lágrimas gritantes nem despedidas teatrais. Houve apenas a aceitação amarga de que algumas histórias se encerram antes de perderem a beleza.
Henrique atravessou a porta com passos firmes. Não olhou para trás. Jussara também não correu. Ficou ali, na sala onde o amor ainda morava, sabendo que, talvez, ele não morasse mais.
O som da fechadura foi leve, quase gentil, como se poupasse os dois do estrondo final. Ela respirou fundo, sem saber se era o começo de um luto ou só um intervalo entre duas versões de si mesma. A xícara de café esfriava sobre a mesa. A mala encostada à porta agora parecia um corpo estranho na casa.
Do lado de fora, o mundo seguia — como sempre segue. Dentro, ela permaneceu sentada, ouvindo os ruídos miúdos da casa e a ausência que já começava a fazer barulho.
Não era um fim. Mas também não era um recomeço. Era só o instante exato em que tudo muda, mesmo que nada pareça ter mudado ainda.
A mala estava pronta desde ontem, encostada na porta como um convite silencioso à partida. Ela fingia que não via. Andava pela casa como se ainda houvesse tempo — arrumando gavetas que não precisavam, molhando plantas que não estavam secas, passando os dedos pelas fotos empoeiradas da estante como se pudesse tocá-los mais uma vez.
Henrique a observava do batente da cozinha. Já não discutia. Também já não pedia que ela fosse. Só esperava. Esperava com aquele olhar de quem entende tudo, mas não consegue impedir nada.
— Você vai mesmo? — ela perguntou, como se fosse a primeira vez.
— Vou — ele respondeu, com a calma triste dos que já disseram isso muitas vezes.
Ele não queria ir, ela não queria que ele fosse, mas ambos sabiam que às vezes querer não tem força. Henrique recebera uma proposta de trabalho longe. Muito longe. Não era só uma cidade diferente — era outra vida. Uma vida que não cabia na rotina que dividiam há sete anos, nem no apartamento de dois quartos, nem na agenda compartilhada de compras de feira e aniversários de sobrinhos.
— E se eu te pedisse pra ficar? — Jussara ousou, quebrando o silêncio como quem atira uma pedra no espelho d’água.
— Eu ficaria — ele respondeu, com honestidade cruel — mas você nunca mais me olharia do mesmo jeito.
— E se eu fosse com você?
— Você deixaria de ser quem é.
Ela sorriu triste. Sabia que ele tinha razão. E era isso que doía. O amor não havia acabado. Era justamente por ainda existir que a despedida era tão difícil. Se tivessem se esgotado em mágoas, seria mais simples. Mas estavam plenos. Eram bons um com o outro. Só não eram certos para o que viria.
Henrique caminhou até ela. Sentou-se ao lado. Pegou sua mão com um carinho sem pressa, como se ainda pudessem congelar aquele instante.
— A gente não vai se perder — disse ele.
Ela assentiu, sem saber se era promessa ou consolo.
— Eu só não queria dizer adeus — confessou, com a voz engasgada.
— Então não diga — ele murmurou. — Diga “vai com cuidado”, “não esquece de mim”, “seja feliz, mesmo sem mim”.
O abraço demorou mais do que qualquer relógio podia medir. Não houve lágrimas gritantes nem despedidas teatrais. Houve apenas a aceitação amarga de que algumas histórias se encerram antes de perderem a beleza.
Henrique atravessou a porta com passos firmes. Não olhou para trás. Jussara também não correu. Ficou ali, na sala onde o amor ainda morava, sabendo que, talvez, ele não morasse mais.
O som da fechadura foi leve, quase gentil, como se poupasse os dois do estrondo final. Ela respirou fundo, sem saber se era o começo de um luto ou só um intervalo entre duas versões de si mesma. A xícara de café esfriava sobre a mesa. A mala encostada à porta agora parecia um corpo estranho na casa.
Do lado de fora, o mundo seguia — como sempre segue. Dentro, ela permaneceu sentada, ouvindo os ruídos miúdos da casa e a ausência que já começava a fazer barulho.
Não era um fim. Mas também não era um recomeço. Era só o instante exato em que tudo muda, mesmo que nada pareça ter mudado ainda.

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