Fios Que Apertam, Nós Que Prendem
Há nós que não se veem, mas se sentem. Não chegam com estardalhaço nem avisam de sua presença — apenas se instalam, silenciosos, entre os gestos mais cotidianos. De manhã, quando o corpo desperta e o peso de levantar é maior que o de permanecer, eles estão ali. À mesa do café, entre contas vencidas e silêncios acumulados. No toque hesitante que não se dá, no afeto retido, na palavra que seria ponte, mas vira muro.
Esses nós não foram feitos por monstros ou carrascos
evidentes. Foram sendo construídos, dia após dia, pelos medos herdados, pelos
sonhos engavetados, pelas normas que nos ensinaram antes mesmo de sabermos que
havia escolha. Foram feitos com a nossa permissão. Na vida afetiva, eles
apertam na forma de relações que já não tocam, mas sustentamos por hábito ou
por pânico de estar só. Na vida econômica, se manifestam no cansaço que nunca
dorme, no suor que não basta, no labirinto de números onde a dignidade se
perde. Quando nos amarramos em um tronco e nos “automutilamos”. E
socialmente... basta abrir os olhos e ver - O mundo é um conjunto de fios
emaranhados que formam nós. Nós de desigualdades, onde alguns flutuam e outros
se enroscam até o sufoco.
Vivemos amarrados a uma série de expectativas que nunca
foram nossas. Precisamos ser felizes — e sorrir para provar isso. Como se a
alegria fosse obrigação, e não um lampejo raro que passa quando não estamos
prestando atenção. E se alguém ousa parar, hesitar, dizer "isso me
dói", logo vem o coro: "Coragem!", "Levanta!"...
"Vai passar!"... A vida nos
exige força até para cair.
Talvez a maior armadilha seja essa: acreditar que
liberdade é algo grandioso, épico, inatingível — quando às vezes ela se esconde
num gesto miúdo, como respirar fundo antes de ceder, ou se permitir o silêncio
num mundo que grita. Talvez não haja como escapar de alguns nós — mas pode ser
que, em certos momentos, possamos afrouxá-los.
Silvia Marchiori Buss
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