Feito Uma Gata no Cio



Inês chegou como quem retorna a um lugar onde deixou algo inacabado.

Não bateu à porta. Apenas girou a maçaneta e entrou, com a mesma naturalidade de quem sempre teve uma chave imaginária daquele espaço — e daquele homem. Tirou os sapatos, pousou a bolsa na poltrona de couro e foi direto até onde ele estava, como se os meses que os separaram tivessem sido apenas um intervalo entre capítulos.

Otávio não se levantou. Apenas ergueu os olhos, como se já soubesse que ela viria, mais cedo ou mais tarde. Era um homem de silêncios bem treinados e sentimentos escondidos atrás da barba por fazer. Mas, naquele momento, ao vê-la, algo tremeu em sua imobilidade.

Ela se encostou no batente da porta, braços cruzados, um vestido leve colando nas curvas com a ajuda de uma brisa morna que atravessava a casa. Havia em Inês um brilho febril, algo entre o perigo e o convite.
— Ainda escrevendo sobre as mulheres com quem você não tem coragem de viver? — provocou, sem pressa, com um meio sorriso que insinuava outras perguntas.

Otávio permaneceu em silêncio por alguns segundos, o tempo exato que levou para as palavras perderem o valor diante da imagem dela. A respiração dele falhou de leve. Inês não era uma lembrança: era um acontecimento que voltava sempre com a mesma intensidade do primeiro dia.
— Tento escrever sobre o que me escapou — disse, por fim.

Ela se aproximou com a leveza de quem sabe exatamente o som que provoca em cada passo. Sentou-se no braço da cadeira dele, tão perto que ele podia sentir o calor de sua pele, o perfume discreto que misturava jasmim e um toque de vinho tinto. Inês nunca foi óbvia. Seu corpo era uma promessa dita em entrelinhas, uma linguagem que Otávio conhecia bem.
— E se eu deixar escapar de novo? — ela sussurrou, com os lábios roçando sua orelha como uma brisa que arde.

Ele a olhou. Demorado. Não com fome, mas com sede. De presença, de contato, de tudo o que negaram um ao outro por orgulho, medo ou covardia. Ali, naquele silêncio quente, não havia mais perguntas.

Ela se levantou, caminhou até o quarto, mas não o chamou. Apenas deixou a porta entreaberta, como quem diz “venha” com o gesto. Otávio hesitou o tempo exato de um suspiro. Depois, levantou-se e a seguiu, deixando os papéis sobre a mesa, a escrita inacabada, a razão adormecida.

Inês já o esperava, sentada na beira da cama, o vestido escorrendo pelos ombros como se não suportasse o próprio calor do corpo. A luz do abajur desenhava sombras suaves na parede, criando contornos de um teatro íntimo onde os dois eram atores experientes.

Ele se aproximou devagar. Não havia pressa, só intensidade. Tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, como quem reconhece um lugar sagrado. Ela fechou os olhos, arqueou levemente o pescoço, entregando-se ao toque como uma gata que se estira no sol da tarde.

Não houve urgência. O que existia ali era outra coisa: o desejo maduro, saboreado sem culpa, como um vinho que só atinge o ponto exato depois de anos guardado.

O vestido caiu.
As mãos dele percorreram cada linha do corpo dela como quem escreve, em braile, uma história esquecida. Inês respondia com o corpo inteiro — ora se entregando, ora guiando, ora desafiando.

Era como se se reencontrassem num idioma que nunca esqueceram. Um idioma sem palavras, feito de pele, respiração, pele de novo. Nada era gritante. Tudo era cheiro. Tudo era profundamente sentido.

E quando o silêncio da madrugada se impôs, ela ficou ali, com a cabeça no peito dele, ouvindo aquele coração que, apesar de tudo, ainda batia no compasso do dela.
— Você sabe que eu não fico — disse, com a voz arrastada pelo cansaço doce de depois.
— Eu nunca pedi que ficasse — mentiu.

Ela levantou-se ainda nua, prendeu o cabelo num coque improvisado e começou a se vestir. Não havia drama, apenas a beleza de uma ausência que não precisava de explicação. No travesseiro, deixou o perfume e um bilhete sem palavras — como só Inês sabia fazer.

Quando fechou a porta atrás de si, Otávio continuou ali, deitado, olhos abertos, o corpo ainda quente da presença dela.

Sabia que ela voltaria.

Quando quisesse.

Voltaria quando o desejo chamasse mais alto que o medo.

Feito uma gata no cio.


Silvia Marchiori Buss

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